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A COPA & O MERCADO: GOL CONTRA? EFEITOS DA COPA DO MUNDO DE 2014 NA ECONOMIA E NO MERCADO DE CAPITAIS

Mais que um acontecimento esportivo, a Copa do Mundo é também um evento econômico. Competições esportivas dessa natureza costumam produzir efeitos relevantes sobre a economia do país e das cidades-sede, movimentando muito mais que camisas e bandeiras.

Muitas metodologias vêm sendo utilizadas para mensurar os impactos antes e depois da realização de megaeventos esportivos. Em geral, os resultados tendem a ser menos espetaculares na análise retrospectiva, que tem como base os fatos, do que na avaliação prévia, que trata de perspectivas. Em outras palavras, na sua maioria estes megaeventos são planejados com euforia e otimismo, mas seu retorno efetivo não costuma ser tão animador.

Segundo o economista Ricardo Amorim, sócio da Ricam Consultoria, o legado da Copa será muito menor do que poderia ser. “Infelizmente, o Brasil terá todos os ônus geralmente associados a sediar uma Copa, mas não todos os bônus. Por falta de planejamento, os investimentos em infraestrutura, que poderiam ser financiados no mercado de capitais ficaram muito aquém do que se esperava”, lamenta. Além disso, Amorim acredita que os impactos positivos em turismo e comércio exterior durante e depois da Copa devem ser menores do que os usuais em função de preocupações com a segurança e as manifestações.

Para Valter Bianchi Filho, sócio da gestora Fundamenta Investimentos, a Copa deixará como herança uma maior difusão da imagem do Brasil para o mundo. Seja para o bem, como para o mal. “Tudo dependerá da imagem percebida pelo resto do mundo da nossa capacidade de organizar o evento e receber bem os visitantes. Se tudo correr bem, sem violência e sem contratempos importantes de infraestrutura nos estádios, o legado será positivo para o país, e poderá se traduzir em um aumento no fluxo de turistas daqui pra diante”, avalia.

No entanto, o gestor teme o risco relevante de que o país transmita uma imagem de desorganização e violência, haja vista que provavelmente o evento será temperado por tumultos nas ruas e manifestações da população, que anseia por melhores serviços e melhor qualidade de vida. “Isso nos levará a uma grande reflexão sobre a real necessidade/capacidade de o país abrigar um evento desses, dado que temos inúmeros problemas a endereçar e que poderiam ser um destino melhor para o dinheiro que foi para construções de arenas e outras amenidades da Fifa”, afirma.

É inevitável imaginar que um eventual fracasso na organização do evento - se potencializado por protestos nas ruas tais como os vistos no ano passado - possam manchar de forma severa a imagem da Presidente Dilma, e culminar numa onda de desejo por mudanças que se transforme em derrota do PT nas eleições presidenciais deste ano. “Seria uma derrota curiosa para o partido que tanto comemorou e tanto capitalizou o mérito de ter trazido a Copa para o Brasil, e talvez um dos nefastos legados da Copa que uma crescente parcela da população brasileira deseja, muito mais do que o próprio hexacampeonato”, avalia Bianchi.

PERSPECTIVAS DESANIMADORAS
Se compararmos com o que ocorreu com outros países-sede, a expectativa se torna ainda mais baixa. Segundo os economistas norte-americanos Robert Baade e Victor Matherson, em um estudo intitulado “A Busca pela Copa: avaliando o impacto econômico do mundial”, até mesmo nações desenvolvidas não conseguiram tirar bom proveito dos jogos. Anfitriões da Copa de 1994, os Estados Unidos registraram perdas entre US$ 5,5 bilhões e US$ 9,3 bilhões, sendo que a expectativa era faturar US$ 4 bilhões. Além disso, analisando o quadro geral, a Copa não teve efeitos substanciais sobre a economia do país. Segundo os autores do estudo, o mesmo ocorreu na Coréia do Sul, que sediou junto com o Japão a Copa de 2002.

Outro estudo realizado por Bruno Milanello, gestor da FAR, que pesquisou o impacto de longo prazo da realização de megaeventos esportivos em diversos países, mostra que somente Barcelona, na Espanha (Jogos Olímpicos de 1992) deixou um legado completo em termos de imagem e uma situação financeira confortável. “Os problemas que vemos no Brasil não são exclusivos nossos. Muitos países-sede passaram pelas mesmas dificuldades”, diz.

Milanello conta que os Jogos Olímpicos de Verão são os eventos que apresentam papel mais relevante na economia dos países-sede. Uma explicação para o fato é a diversidade desportiva do evento. Muito embora o futebol seja visto por uma grande maioria do mundo, ele não é unânime em diversos países. “Dessa forma, a abrangência dos Jogos Olímpicos acaba por produzir um movimento em termos de negócios (desde patrocínios a realização de obras) muito mais relevante que uma Copa do Mundo apesar dos Jogos Olímpicos serem concentrados em apenas uma cidade ao passo que uma Copa do Mundo em mais de uma”, explica.

MAIS TURBULÊNCIA?
Não bastasse a previsão de que o maior evento futebolístico do mundo pouco agregará à economia brasileira, há ainda evidências de risco pós-Copa. De acordo com o economista Dario Perkins, da Lombard Street Research, há uma coincidência entre os contratempos do mercado e o evento: muitas crises econômicas da história aconteceram em anos de Copa do Mundo.

A competição, por exemplo, teve início em 1930, o primeiro ano completo da Grande Depressão. Mais recentemente, coincidiu com a recessão dos Estados Unidos em 1990 e um colapso do mercado de títulos, que começou em terra norte-americana e se espalhou por todos os mercados desenvolvidos em 1994. Soma-se a isso a crise financeira asiática e o colapso do hedge fund sediado em Connecticut chamado Long Term Capital Management (LTCM) em 1998, além do crash do mercado imobiliário dos Estados Unidos em 2006 e do início da crise da Zona do Euro em 2010. "As coincidências me fizeram pensar. O que poderia dar errado desta vez? Baseado em episódios passados, devemos começar a olhar para as bolhas", disse Perkins ao canal norte-americano CNBC.

APOSTAS
Os analistas acreditam que, olhando no curto prazo, ainda há a possibilidade de empresas ligadas aos mercados afetados pela Copa apresentarem bons resultados. Mas, para isso, a escolha deve focar em companhias que terão giro elevado durante o evento esportivo. “Trata-se de um período muito excitante do ponto de vista emocional e do ponto de vista de investimentos. Além de torcedores ferrenhos, teremos que ser investidores muito atentos para sabermos diferenciar o joio do trigo e aproveitarmos as oportunidades da melhor maneira possível. Eles virão com certeza”, garante Bruno Milanello, da FAR.

Segundo Valter Bianchi, da Fundamenta Investimentos, os principais setores que se beneficiarão são os ligados ao turismo e hotelaria, pois terão um aquecimento na sua atividade além do normal. A rede hoteleira BHG (Brazil Hospitality Group), que comprou o hotel Marina Palace, no Rio de Janeiro, já afirmou acreditar que o maior benefício da Copa do Mundo virá depois da competição. Em entrevista à Reuters, o presidente da companhia, Eduardo Bartolomeo, afirmou que, na África do Sul, o efeito da Copa foi sentido um ano depois.

Os jogos também devem incrementar as vendas de cerveja país afora. “A Ambev, como patrocinadora do evento, colherá os frutos da forte exposição da sua imagem para o mundo todo, bem como os demais patrocinadores”, afirma Bianchi. No caso de companhias que vendem eletrodomésticos, como Magazine Luiza, a demanda pode ser reforçada pela procura de itens como geladeiras e televisões.

Já as empresas aéreas podem ter o efeito Copa neutralizado pela redução de passageiros que viajam por motivo de negócios. O mesmo deve acontecer com varejistas como Lojas Renner, Arezzo, Hering, Marisa e Alpargatas e o segmento de shopping centers, com BRMalls, Sonae Sierra e Iguatemi. No entanto, Milanello acredita que é possível minimizar a perda de consumo por conta dos feriados. “As empresas possuem diversos mecanismos de contornar isso. Seja antecipando promoções, vendendo com descontos, reduzindo estoques, administrando a linha de produção”, diz.

Os demais segmentos da economia, contudo, estão temerosos, pois fala-se em menos atividade no comércio nos dias de jogos, e menos atividade na indústria – que inevitavelmente para durante os jogos da seleção em horário comercial. “Destaco também a menor atividade no período da Copa por conta do caos logístico esperado, o que fez muita gente adiar reuniões ou evitar viagens durante o evento”, afirma Bianchi, da Fundamenta Investimentos.


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