Em Pauta

OS IMPACTOS DA COP26 NAS EMPRESAS E NO MERCADO

O que fica de lição para o Brasil?
Era preciso discutir as urgências, fixar mecanismos globais e ter a certeza de que desta vez um novo acordo irá funcionar. Dirigentes governamentais de 197 países, representados por mais de 100 líderes mundiais, 479 delegados enviados pelo governo brasileiro, representantes de companhias, investidores, povos originários e do terceiro setor, totalizando 40 mil espectadores presenciais, nunca estiveram tão ativos em um evento desta natureza, como na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas - COP26. Além das plenárias houve reuniões paralelas durante toda a primeira quinzena de novembro, em Glasgow, Escócia. O que fica de efetivo como lição? Quais os impactos gerados e os próximos passos que o Brasil e suas organizações, deverão dar a partir de agora?

Para responder e debater essas questões a Revista RI ouviu vários players do mercado, que acompanharam - presencialmente ou não - o evento.

Luis Felipe Adaime, fundador e CEO da Moss.Earth, destaca que o mercado de carbono é a maior fonte de riqueza potencial para o Brasil na história, já que o país emite apenas 5% equivalentes aos créditos do mercado voluntário. Em resumo, pode-se auferir US$ 120 bilhões a.a. com tais recursos.

Rebeca Lima e Laura Albuquerque, executivas do CDP e da WayCarbon, respectivamente, destacam o reconhecimento do vínculo Ciência e Natureza e colocam o combate e controle do desmatamento como premissa para o funcionamento eficiente do mercado de carbono. Carlo Pereira, Diretor da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, lembra que há um caminho a ser percorrido. “É claro que não seremos Net Zero em 2030, mas temos de ter metas intermediárias para 2025, 2030, 2035...”

Para a economista Tarcila Ursini, advogada, mestre em direito, com atuação junto ao IBGC, Instituto Ethos e Conselhos de várias empresas, está claro que grande parte da transformação virá do setor privado, dos investidores, dos governos locais e da sociedade civil.

Monica Kruglianskas, head de Sustentabilidade e Parcerias na FIA Business School (Programa de Gestão Estratégica da Sustentabilidade), concorda com isto. E acrescenta: “A Glasgow Financial Alliance for Net Zero demonstrou a mobilização do setor privado, afirmando que vai contribuir com US$ 130 trilhões de fundos privados para permitir a transição para energia limpa em todo o mundo”.

Célio Fernando Melo, Secretário Executivo de Regionalização e Modernização da Casa Civil do Estado do Ceará e Vice-Presidente da Apimec Brasil, destacou a importância dos acordos de Glasgow e comenta o potencial de energias renováveis de seu estado.

Além dos especialistas, trazemos a visão das companhias Suzano e Natura, destacando que a Suzano se tornou, em setembro de 2020, a segunda empresa do mundo e a primeira empresa das Américas a realizar a emissão de um Sustainability-Linked Bond. Ao fazê-lo, conseguiu captar recursos na menor taxa da história da companhia e no melhor patamar até então registrado por empresas brasileiras para títulos com o mesmo prazo de vencimento (dez anos). Hoje 39% da dívida da empresa está atrelada a esses instrumentos ligados à sustentabilidade.

Já a Natura, coloca o desmatamento zero e o mercado de carbono, com inclusão social,como premissas a este rico debate. Há pouco mais de um ano a Natura&Co lançou seu “Compromisso com a Vida”, plano robusto para enfrentar algumas das questões globais mais urgentes. Esse plano está dividido em três pilares que considera fundamentais para firmar um modelo de desenvolvimento: enfrentar a crise climática e proteger a Amazônia; defender os direitos humanos e a garantia de igualdade e inclusão; e abraçar a circularidade e a regeneração até 2030.

Embora o governo federal tenha patinado na questão ambiental nos últimos anos, o Brasil se fez representar na Conferência do Clima, a COP26, assinando acordos, propondo negócios e se municiando de informações para o presente e o futuro. Cabe destacar a presença de Txai Suruí, a jovem índia ativista, que discursou. Pelo menos metade (13 delegações) das representações estaduais brasileiras acompanharam de perto as discussões do clima. Uma vez mais a iniciativa privada foi expressiva, com CEOs, conselheiros, consultores e diversos investidores assistindo e debatendo as questões mais urgentes, seja no evento oficial ou em paralelos que permearam a cidade escocesa de Glasgow neste novembro de 2021. Mas, para o país, e o mercado de capitais, o que fica de saldo?

O Brasil apresentou metas dentro do que os outros países apresentaram. “Mas é claro que poderíamos ter sido mais ambiciosos”, considera Carlo Pereira, do Pacto Global. Para ele, mais que a meta “precisamos do caminho para se chegar lá. Para 2050 ainda falta muito tempo e é necessário saber o que vai acontecer também a curto e médio prazos”. Depois de destacar o engajamento das companhias na Agenda Ambiental, o dirigente destacou que um indicativo desta participação é o crescimento da Rede Brasil do Pacto Global da ONU. “Foi a que mais cresceu entre as redes do mundo em 2020. Somos a terceira maior e já chegamos a 1,5 mil signatárias, demonstrando que o setor privado brasileiro está preocupado com os acordos climáticos que estamos propondo”.

Mostrando entusiasmo, Luis Adaime, da Moss.Earth, lembra que esta foi a maior participação brasileira da história das COPs, com representantes do Executivo, Legislativo e de vários setores da sociedade civil, trazendo na mala muitos projetos para descarbonização. “Neste ano houve o reconhecimento de que a diplomacia e os representantes do governo federal brasileiro mostraram mais flexibilidade nas negociações, comparado aos últimos dois anos, em que fomos vistos como pária global. Revisaram as metas brasileiras, assinaram a Declaração de Florestas, junto com mais 124 países que se comprometem a zerar e reverter o desmatamento no mundo até 2030 e o Compromisso Global do Metano, esforço de mais de 100 países, para reduzir em 30% as emissões de metano até 2030. Dois acordos que impactam muito o Brasil, já que somos detentores de uma vasta área florestal e o 5o maior emissor de gás metano no mundo”, pontua Tarcila Ursini.

Laura Albuquerque, Gerente de Equipe da WayCarbon, mestre em Planejamento Energético e Ambiental e bacharel em Engenharia Química, destaca a participação do país como um todo, “que desta vez não se saiu como patinho feio, diferentemente de países como a Índia, que resistiram ao phase-out do carvão no acordo final e mudaram o texto para phase-down”. Em sua visão, o ativismo empresarial da Braskem, Ambev, Microsoft, Natura, Suzano, Klabin, CPFL, Bradesco e Itaú foi algo substancial.

Esta mobilização, de vários setores da economia e da sociedade em geral, é um ponto também assinalado por Monica Kruglianskas, head de Sustentabilidade e Parcerias na FIA Business School, morando atualmente em Londres mas em linha direta permanente com o Brasil. Para ela, a partir da COP26, “o Brasil voltou a ocupar seu papel central na agenda do clima e da COP, com participantes de todos os setores contribuindo com sua experiencia, criatividade e disposição de colaborar globalmente”, com o que concorda Sonia Favarettto, SDG Pioneer pelo Pacto Global da ONU e presidente do Conselho Consultivo da GRI.

É importante reconhecer que foi uma COP com grande presença dos non-party stakeholders (NPS), ou atores não-estatais, brasileiros e que se avalia positivamente o engajamento destes, já que são responsáveis por catalisar ações reais quanto a ambição climática e encorajamento de políticas públicas que apoiem a implementação da NDC”, sublinha a engenheira florestal Rebeca Lima, diretora do CDP Latin America, que adiante completa: “Há muitos exemplos concretos da ação desses atores no contexto da COP26 e da Campanha Race to Zero (RTZ), na qual mais de 7.500 atores não estatais e subnacionais apresentaram compromissos voluntários compatíveis com o 1,5°C. No setor financeiro, por exemplo, um grupo de 18 investidores brasileiros, com mais de R$ 873 bilhões em ativos sob gestão, assinou uma declaração de apoio a políticas de transição resilientes e de baixo carbono.”

Esse manifesto também sugere o compromisso do país em implementar políticas de Net Zero até 2050, com metas "claras e ambiciosas", alerta Rebeca Lima, referindo-se a mesma ambição e ousadia que seu colega Carlo Pereira, do Pacto Global. A “Declaração do Investidores pelo Clima” conta com o apoio do CDP e foi apresentada em um side-event da Iniciativa Empresarial em Clima (IEC), no dia 02 de novembro último. Cabe ainda enfatizar a consolidação, durante a COP26, do Consórcio Brasil Verde pelos governadores que compõem o movimento Governadores pelo Clima. A prioridade será elaboração de planos de neutralidade de carbono, com o apoio de entidades. Até o momento, 22 governadores aderiram ao consórcio.

Na mesma linha de Rebeca Lima, a economista Tarcila Ursini ressalta a participação dos atores não-governamentais. “O Brasil não se resume à visão de um governo. Vejamos os casos da jovem ativista indígena Txai Suruí e de Renato Franklin, CEO da Movida, único brasileiro a participar da reunião preparatória oficial”.

Em Glasgow, o governo brasileiro teve a segunda maior representação, como pode ser visto no Pavilhão Brasil, comenta Célio Fernando Melo, o secretário executivo de Regionalização e Modernização da Casal Civil do Estado do Ceará. Para o VP da Apimec Brasil (Associação dos Profissionais de Investimentos e Analistas do Mercado de Capitais), que é economista, mestre em Negócios Internacionais e doutorando em Relações Internacionais, o país estava bem articulado e com estratégias de mitigação e adaptação em sua narrativa, diante das mudanças climáticas.

“O Brasil foi capaz de mobilizar a participação nacional por meio de diferentes setores da sociedade civil organizada, iniciativa privada e representantes de comunidades – como os povos originários, os povos de comunidades tradicionais, jovens e terceiro setor em geral. Isso se refletiu na percepção dos participantes para as negociações das mudanças climáticas no âmbito da UNFCCC, seja das grandes instituições internacionais, seja dos representantes das delegações de outros países, ratificando o Brasil como um país-chave, dada a sua condição continental e de tantos contrastes”, notou.

Visão compartilhada pela economista Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds) que, em entrevista, observou: “A percepção era que havia mais presidentes de empresas na Conferência do Clima em Glasgow do que em Davos, no Fórum Econômico Mundial. Houve também participação maciça de movimentos sociais - jovens, ambientalistas, indígenas, mulheres e negros, todos amplificando o clamor por justiça climática. Essa atuação da sociedade civil fica como uma das marcas mais importantes da conferência em Glasgow”.

Ainda de acordo com a dirigente do Cebds, “a pressão unida do setor empresarial, que se posicionou de maneira contundente na defesa de uma economia verde, produziu resultados positivos”. E declara: “Não se pode mais dissociar a questão do desenvolvimento de pontos fundamentais como a emissão de gases de efeito estufa e o clima”.

ARTIGO 6, A EVOLUÇÃO
É praticamente consenso que a criação de um mercado de crédito de carbono (objeto do Artigo 6 do Acordo de Paris) constitui avanço na questão do clima. “O Acordo de Paris foi importante porque é o marco global de reconhecimento de 200 países de que precisamos limitar e reduzir a emissão de gases de efeito estufa e que todos os países precisam se comprometer individual e coletivamente com metas de redução”, observa Monica Kruglianskas, acrescentando que Paris criou a arquitetura para isso.

A continuidade seria discutida agora em Glasgow, com o foco no 1,5ºC de limite de aquecimento global. E completa: “Com isso a neutralidade de carbono passou de uma ideia marginal para um conceito mainstream. Mas o acordo não estipulou as regras de como isso será feito e a evolução dos sub itens: 1) Aumentar a contribuições de redução de cada país; 2) Definir as Regras de Paris; 3) Tratar do investimento de US$ 100 bilhões anuais que financiarão a transição a neutralidade e adaptação climática dos países mais afetados, acabou deixando a desejar”.

Por outro lado, prossegue Monica Kruglianskas, a Glasgow Financial Alliance for Net Zero demonstrou a mobilização do setor privado neste sentido, afirmando que vai contribuir com US$ 130 trilhões de fundos privados para permitir a transição para energia limpa em todo o mundo. Esses valores ainda vão passar por muito escrutínio, mas já sinalizam a presença e liderança do setor privado. A entrada das instituições financeiras na neutralização de carbono terá rapidamente um efeito cascata para as empresas. Por exemplo, os fundos de pensão dos países nórdicos e do Reino Unido anunciaram que vão investir US$ 130 bilhões em energia limpa e projetos climáticos até 2030. Como parte desse compromisso, os fundos também apresentarão relatórios anuais sobre o progresso de seus investimentos climáticos.

Enquanto Laura Albuquerque afirma: “por mais que a ciência seja absolutamente clara e que esses mesmos países tenham acordado em esforços em direção a 1.5°C, temperatura média para nos mantermos seguros, em termos de ambição climática e de velocidade de mudança ainda ficamos devendo”. Carlo Pereira cobra avanços menos tímidos que a redução do carvão e eliminação progressiva dos combustíveis fósseis. Monica Kruglianskas ressalta o fato de que incluir a natureza e biodiversidade nas negociações também foi um importante avanço desta COP, porque até então as conversas e negociações estavam muito mais focadas em transição energética. E destaca os dois acordos, neste âmbito, com implicações importantes para o Brasil: o Acordo de Florestas, assinado por mais de 100 países líderes que visa eliminar o desmatamento até 2030 e cobre 85% das florestas mundiais, o que é vital para a absorção biológica de CO2 para ajudar no combate ao aquecimento global. A promessa do Acordo de Floresta inclui US$ 19,2 bilhões de fundos públicos e privados. E cumpre destacar que mais de 30 das maiores corporações financeiras do mundo concordaram em interromper o investimento em atividades que promovam o desmatamento. Na prática, isso significa que a cadeia de valor sem desmatamento vai se tornar norma. Paralelamente, também tivemos o Acordo de Metano, que implica em sua redução de 30% até 2030.

Na opinião de Sonia Favaretto, o artigo 6 “que nasce no Acordo de Paris e, efetivamente, ganha vida em Glasgow é o destaque, enquanto o ponto que deixa a desejar foi o financiamento de US$ 100 bilhões ao ano de países desenvolvidos para países vulneráveis financiarem a transição climática”. Marina Grossi e Célio Melo também entendem que houve avanços, embora relembrem a promessa não cumprida do financiamento pelos países ricos.

Depois de Rebeca Lima assinalar evolução em pelo menos cinco pontos - assim descritos: i. A finalização do Livro de Regras de Paris; ii. Uma explicita conexão entre natureza e clima; iii. O reconhecimento de que o 1,5°C ainda é possível; iv. Avanços no accountability para implementação do Acordo de Paris; e v. Fortalecimento dos padrões para transparência e reporte corporativo com o anúncio do International Sustainability Standards Board (ISSB) pela IFRS - Tarcila Ursini chama a atenção para a urgência climática. “Fazendo uma conta simples, ainda que todos os países cumpram as suas metas de emissões apresentadas na COP26, as chamadas NDCs, o aquecimento do planeta deve chegar a 2,5 e 3 graus, até o fim do século, bem acima do patamar seguro de 1,5 graus definido pelos cientistas. É preciso avançar muito mais e muito mais rápido. Por isso se fala tanto em emergência climática e não mais mudança climática”, alerta.

AMAZÔNIA
Apesar da Amazônia estar entre as macro preocupações, não houve avanços significativos em termos de financiamento da redução do desmatamento e criação de uma estrutura efetiva de prevenção e controle. Para o empresário Luis Adaime, esta solução virá pelo mercado voluntário: “O volume global cresceu de US$ 300 milhões em 2019 a esperados US$ 1,2 bi em 2021. A COP e a UNFCCC são soluções geopolíticas, não de mercado privado. A Moss, sendo uma intermediaria global importante no mercado privado, pode confirmar que a demanda está muito mais alta que a oferta”, revela.

Para a conselheira de várias companhias, Tarcila Ursini, “com todos os olhos voltados a Amazônia, é notória a oportunidade do Brasil sair do antigo e falso dilema entre conservação e desenvolvimento, e assumir a dianteira de seu futuro. Somos nós que precisamos avançar nesse entendimento e não esperar de organismos globais”. Ressalta, ainda, que a Amazônia é a maior floresta tropical do mundo, com mais de 4 milhões de km2 e 49% do território brasileiro, abrigando a maior biodiversidade do mundo, onde vivem e se reproduzem um terço das espécies existentes no planeta.

Já a dirigente da WayCarbon, Laura Albuquerque, lembra que o pacto de Glasgow reforça a relevância das florestas para manutenção dos ecossistemas e atingimento dos objetivos de longo prazo da convenção, inclusive reforçando a importância das salvaguardas ambientais e sociais. “Entretanto - chama a atenção -, como nacionalmente o Brasil implementa suas políticas públicas foge do controle da Convenção. O Brasil possui financiamento para a redução do desmatamento, vide recursos congelados do Fundo Amazônia, e possui o Política Pública de Combate ao Desmatamento na Amazônia, e no passado entre 2008 a 2014 provou capacidade de implementá-la com sucesso usando os arranjos institucionais necessários e vigente à época. Avalio que lição aprendida de sucesso, pode ser replicada e escalada, basta vontade política de implementação”.

Na avaliação de Monica Kruglianskas, um mix de vontade politica, “não só federal, como vimos na COP26, vários governadores de estados da Amazonia, apresentando planos de recuperação verde, e também empresas com soluções trabalhando nesta direção, nos dá a certeza que temos muito chão pela frente, mas é importante ver o copo meio cheio e continuar motivando e engajando todos estes atores”.

Sobre produção agrícola, Tarcila garante que “é possível continuarmos uma potência na produção de alimentos utilizando os cerca de 270 milhões de hectares já em atividade agropecuária e silvicultura ou mesmo nos tornarmos ainda mais competitivos com o advento de tecnologias, como afirmou recentemente Marcello Britto, presidente da Abag (Associação Brasileira do Agronegócio)”.

O nosso “elefante na sala” é o desmatamento, e isso passa por um combate efetivo às queimadas e ao desmatamento ilegal. Já que 44% dos gases que o país emite vêm da derrubada da floresta - sendo que mais de 90% são atividades ilegais. A declaração é de Marina Grossi, lembrando que ao colocar a floresta no centro das discussões, a governança climática evoluiu.

No entendimento de Célio Melo, secretário de Modernização do Ceará, é necessário avançar nos financiamentos e formas que ofereçam uma estrutura concreta de prevenção e controle para as preocupações quanto ao desmatamento e seus impactos, principalmente da região da Amazônia.

ENERGIAS RENOVÁVEIS
Para promover energias renováveis é preciso começar descarbonizando as economias - diz Rebeca Lima, dirigente do CDP Latin America, acentuando que o texto final da COP menciona a importância de redução gradual de uso de fósseis pela primeira vez, bem como houve acordos voluntários, sobre o carvão assinado por mais de 190 países e organizações. Luis Adaime e Sonia Favaretto consideram isto um avanço.

Embora concorde com o tema sobre a mesa, Monica Kruglianskas vê o carvão como “o combustível fóssil mais sujo” e defende sua eliminação da matriz energética, rapidamente, para que o planeta fique dentro de 1,5 ° C do aquecimento global. A professora conta que o mineral é responsável por 40% das emissões anuais de CO2 globais, e ter isso mencionado especificamente na cúpula é um passo significativo na direção certa. “Para atingir a meta de eliminação do carvão estabelecida na COP26, um mínimo de 40% das usinas a carvão do mundo devem ser fechadas até 2030, o mais tardar”, reitera.

Rebeca Lima diz que dados do relatório ‘Benchmark global de óleo e gás do CDP’, mostram que as emissões combinadas de 100 empresas de petróleo e gás serão responsáveis por quase 80% do orçamento global de carbono total, se não houver mudanças drásticas e urgentes. No contexto brasileiro, o governo menciona que a matriz energética brasileira já tem grande percentual de renováveis. “De fato, mais de 80% da nossa matriz vem dessas fontes, mas em um dos eventos que organizamos pesquisadores parceiros da UFRJ (projeto ACT-DDP, evento) demonstraram, por meio de análises de cenários, que é possível aumentar esse percentual com as tecnologias disponíveis e que esse é chave para alcançar o Net Zero no país até 2050 e cumprir a NDC. Adicionalmente, a mudança para energias renováveis é cada vez mais econômica”, ressalta.

O Ceará, comenta Célio Fernando Melo, possui um grande potencial de geração de energias renováveis. Em números, os Memorandos de Entendimento já assinados montam a US$ 16,8 bi, com previsão de, até o 1o Semestre de 2022 - conforme memorandos em andamento - chegar a um volume de investimentos diretos de US$ 25 bi. Somando às estimativas de ampliação da cadeia energética solar/eólica e o HUB de Hidrogênio Verde o Ceará poderá receber investimentos da ordem de US$ 50,8 bi, em um horizonte máximo de seis anos, segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado do Ceará.

Na COP26 houve uma série de anúncios que colocam o setor financeiro no caminho do desenvolvimento sustentável. Coalizões de bancos, seguradoras e gestores de ativos anunciaram recursos para financiar ações que eliminem ou neutralizem a emissão dos gases do efeito estufa e o caminho está dado para a substituição dos combustíveis fósseis por energias limpas, analisa a presidente do Cebds, Marina Grossi, acentuando ser necessário financiar projetos limpos em vez de iniciativas que emitem gases do efeito estufa.

POTENCIAL DE RIQUEZA
“Vou expressar as diferenças entre a COP e o mercado privado: a COP leva a compromissos e discussões geopolíticas e voluntárias de governos. O mercado voluntário, paralelo ao MDL e COP e soluções da ONU, é privado, independente, global, e está avançando explosivamente”. A afirmação é do CEO da Moss.Earth, Luiz Adaime, que acrescenta: “O mercado de carbono é a maior fonte de riqueza potencial da história para o Brasil. A gestora Schroders chama o Brasil de “Arábia Saudita do carbono”, já que o Brasil, de acordo com a FAO, possui 40% das florestas tropicais do mundo e 50% da reserva mundial de carbono”.

Ainda de acordo com Adaime, por aqui há mais carbono e potencial para emissão de créditos que a somatória do 2º ao 11º país neste quesito. “O Brasil atualmente emite aproximadamente 5% dos créditos de carbono do mercado voluntário global, 10 milhões/ton ao ano. Temos o potencial de emitir 1,5 bilhões ao ano, o que são 150 vezes mais”.

O mercado global de carbono é uma grande oportunidade para o Brasil, reconhece Marina Grossi. O país poderá vender seus créditos de carbono ao remover os gases do efeito estufa da atmosfera. O mercado nacional de carbono é central para que o país possa aproveitar as oportunidades desse comércio, gerando empregos e renda, destaca ela, aduzindo: “A ausência de um mercado regulado doméstico vai gerar prejuízos e perda de competitividade internacional para as empresas brasileiras”.

Para o secretário do Ceará, é notável a presença do setor privado nas negociações e nos compromissos em reduzir as suas próprias emissões. “O desafio é especialmente difícil para companhias que visam atingir emissões líquidas zero, o que significa remover tanto gás de efeito estufa do ar quanto elas colocam nele. Para muitos, será necessário usar créditos de carbono para compensar as emissões das quais elas não podem se livrar ainda por outros meios. É justamente aí que habita a oportunidade do mercado de crédito de carbono”, constata, argumentado ainda que os manguezais, ecossistemas de transição entre o bioma marinho e o bioma terrestre, somente no seu estado possuem 19.000 hectares, com estimativas de captação de carbono da ordem 80.000 toneladas por ano.

Segundo a WayCarbon, os benefícios e oportunidades são grandes para o Brasil. “O estudo que fizemos em parceira com o ICC Brasil (Câmara de Comércio Internacional) ressalta em detalhes esse benefícios que incluem: o Brasil ser um provedor relevante de créditos de carbono – entendendo isso como os mecanismos descritos dentro do Art. 6 do Acordo de Paris; para cada crédito de carbono gerado também poder rastrear o benefício social de geração de emprego de um determinado projeto, o aumento da geração de renda em um território e outros benefícios ambientais, principalmente para setores relevantes como agropecuária, energia e florestas”, assinala.

Com base no acompanhamento que faz, a professora Monica Kruglianskas relata que o mercado global regulamentado poderá mobilizar “dezenas de bilhões de dólares e financiar mudanças tremendas na proteção e regeneração florestal”. E enfatiza: “Além de ajudar o Brasil a proteger a Amazônia, um mercado global de carbono saudável criaria grandes oportunidades para parceiros comerciais e de investimento que poderiam se juntar ao país para ajudar a acelerar sua jornada para se tornar uma economia Net Zero antes mesmo de 2050”.

Já o CDP entende que ter um mercado de carbono é importante porque, por exemplo, estudos de referência estimaram que o mercado abre a possibilidade de redução de até US$ 320 bilhões de recursos necessários para o atingimento das NDCs. Em outras palavras, essencial para objetivos de mitigação. “Esse instrumento será uma realidade porque é capaz de definir, de maneira mais clara, limites das emissões por setores, indústrias e países, e economicamente representa uma solução de mitigação custo eficiente”, declara Rebeca Lima.

ALERTA
Mas, calma lá. Da mesma forma que analisamos o potencial de riqueza, é preciso ver o quanto o Brasil emite de carbono na atmosfera, podendo estragar os preparativos dessa “festa”.

“O combate e controle do desmatamento no Brasil e no mundo é premissa básica para o funcionamento eficiente de qualquer mercado de carbono, seja ele global, nacional ou voluntário. O benefício observado dos mercados de carbono existentes vem a partir de um conjunto de políticas públicas que juntas convergem para a redução de emissões, nenhum instrumento econômico sozinho – como o mercado de carbono – consegue solucionar o desafio climático de redução de emissões. O mercado de carbono é um instrumento que ajuda a reduzir os custos de mitigação entre diversos setores produtivos ou países permitindo que os atores parte desse mercado troquem suas permissões (direitos de emissão) reduzindo o custo total da mitigação”, destaca Laura Albuquerque.

Já o consultor Luis Adaime afirma que o Brasil emite mais de 2 bilhões de toneladas de CO2 equivalente ao ano, sendo mais da metade proveniente de queimadas, especialmente da Amazônia. “Teríamos que certificar o nosso potencial em cheio, o 1,5 bilhão mencionados anteriormente, para neutralizar a destruição atual”.

Concordando com os colegas, Rebeca Lima diz ser absolutamente necessário este controle, para que o Brasil não saia da posição de ofertante de créditos de carbono para possível comprador de créditos, além de perder credibilidade. “O Brasil precisará retomar o caminho de fortalecimento de sua governança ambiental, reduzir drasticamente as taxas de desmatamento e combinar ações de comando e controle com as ações voltadas para o mercado”, enfatiza.

ENGAJAMENTO
O ESG está ligado a como o mercado financeiro enxerga a sustentabilidade. Então, e até por isso, o setor privado precisa estar cada vez mais engajado, e de forma rápida, a essa agenda.

O pensamento acima é do dirigente da Rede Brasil do Pacto Global, que enxerga o setor privado avançado nesta agenda. “Há, no entanto, muito a ser feito. Os governos, seja o federal ou os subnacionais, precisam e devem fazer as suas partes também. E isto não é o Pacto Global só que está cobrando. Há uma pressão internacional enorme, seja de outros governos, seja de investidores, então é necessária uma união dentro do tema”, diz Carlo Pereira, completando em seguida: “O governo assumiu seus compromissos e agora precisa colocar em prática, assim como empresas que estabelecem metas. Com o Observatório 2030 estamos monitorando tudo isso”.

Saltou aos olhos a cooperação público-privada na COP26. “O setor privado trouxe uma liderança fundamental para a ação climática em Glasgow. As empresas estiveram presentes em número maior que outras vezes e, como nunca, se engajaram nas conversas sobre como descarbonizar e trazer compromissos de forma inovadora”, relata Monica Kruglianskas, lembrando do Manifesto de Negócios do WBCSD para a Recuperação do Clima, relatórios lançado no evento.

“É a primeira vez que as empresas mais ambiciosas e sustentáveis ​​do mundo usam sua voz coletiva para delinear o que é necessário para acelerar a recuperação climática global. Atualmente, não há mecanismo para medir a contribuição do setor privado para a recuperação do clima e o Manifesto propõe um novo mecanismo de Contribuições Corporativas Determinadas (CDCs) para medir a esta contribuição”, continua ela, acrescentado que o setor financeiro foi a Escócia pronto para entrar em ação, com o anúncio da Glasgow Financial Alliance for Net Zero (GFANZ). “A Aliança agora é responsável por 40% do total de ativos financeiros do mundo. Esses ativos são administrados por 450 empresas em 45 países, de todas as partes do setor financeiro. Houve também o lançamento histórico do International Sustainability Standards Board (ISSB), uma divulgação de padrões globais há muito desejada para a sustentabilidade do mercado de capitais (ESG) que irá realmente preparar o mundo para a consolidação e padronização de relatórios com base na materialidade sobre o efeito estufa. Essa será a linguagem para integrar o que as empresas fazem e o que o mundo financeiro vai valorizar”.

Manifestando convicção em sua fala, Laura Albuquerque diz que a agenda do clima é impossível de ser implementada por uma única frente. “Aliás, esse é um dos papéis da COP, reunir governos, sociedade civil, empresas, bancos, academia e outras partes que compõem a solução. O gargalo de financiamento de projetos não vai vir do engajamento apenas dos investidores, vai vir dos envolvidos nas diferentes etapas do financiamento, desde uma barreira regulatória que precisa ser destravada a um acordo entre partes sobre como classificar e qualificar projetos que possuem características socioambientais positivas, a exemplo da discussão sobre taxonomia para financiá-los”. E confidencia: “Durante a COP ouvi de mais de um investidor que a oportunidade para o baixo carbono está clara, mas os caminhos para ela ainda precisam de empurrão para que o capital privado possa alcançar os projetos”.

Já o CEO da Moss.Earth chama a atenção para um fato: “Houve um evento demográfico, cerca de três anos atrás, que poucas pessoas se atentaram ou comentam. São os milennials, pessoas de 40 anos ou menos, se tornaram o grupo demográfico mais importante e numeroso do mundo – passaram os baby boomers (pessoas de acima de 60 anos). E os milennials se importam muito com sustentabilidade, e esse crescimento (são 30% da população hoje e em cinco anos serão 70% da força de trabalho do mundo) está levando a um aumento exponencial de demanda por ESG, por compensação de carbono e por soluções ambientalmente positivas pelas empresas”. 

Luis Adaime comenta estudo da McKinsey mostrando que a demanda das empresas por créditos de carbono para compensação deve levar a aumento entre 15 e 100 vezes sobre o nível atual, até 2030. “Essa demanda elevará os preços dos créditos de carbono (já aumentaram em quatro vezes no último ano), tornando a terra com floresta mais valiosa, e levando a maior preservação e retorno de projetos ambientais”.

A dirigente latino-americana do CDP concorda que nos últimos anos já tem havido essa mudança de postura do setor privado em relação ao seu papel no combate às mudanças climáticas. “O CDP apoia as empresas a serem mais ambiciosas. Tanto que em nosso último relatório sobre empresas respondendo a investidores sobre clima, quase metade está aguardando aprovação de suas metas SBTi. Teve um aumento de 55% no número de metas climáticas reportadas e quase metade já está desenvolvendo seus planos de transição”.

E depois de citar que os investidores não mais se ocupam somente de análises econômico-financeiras - buscando firmemente o ESG - Tarcila Ursini abrevia: “Sem desmerecer o papel dos governos, é fundamental trabalharmos todos pela qualidade técnica, além da integridade de quem iremos votar, qualidade da gestão pública”.

As empresas brasileiras tiveram uma atuação de destaque na COP26. O setor se posicionou de forma clara por uma agenda verde, assegura Marina Grossi, assegurando que o Cebds capitaneou o posicionamento “Empresários pelo Clima”, que reuniu a assinatura de 119 CEOs e 14 entidades defendendo o desenvolvimento sustentável.

MODELOS
Sob o prima global, outros modelos de discussão, dentro do G20, ESA-China, USA e BRICS não acelerariam a obtenção de compromissos? - perguntamos. Sem dúvida - responde Sonia Favaretto. Em sua ótica, os modelos colaboram para essa macro agenda da mudança do clima. Pegando o exemplo do G20, em 30 e 31 de Outubro na Itália... era de suma importância para a COP avaliar toda a Agenda dos ODS e apoiar um processo sustentável e de recuperação e resiliência em todo o mundo.

Laura Albuquerque também concorda. Para ela, a pauta climática precisa urgentemente entrar formalmente nesses fóruns que possuem processos decisórios com garantias mais fortes de cumprimento. E justifica o raciocínio: “O reconhecimento dos ministros de finanças do G20 em 2015, advinda do Financial Stability Board em reconhecer os riscos climáticos foi um primeiro divisor de águas seguido do Network for Greening the Financial Systems, em 2019, que reúne os Bancos Centrais e de Desenvolvimento do mundo na mesma temática. Entretanto ainda é necessário sintonizar muitos dos resultados da ciência à linguagem do mercado financeiro e vice e versa. Eu diria que estamos no caminho, com pouco tempo para ser perder no mapa”.

Luis Adaime é outro que faz coro, destacando que tais discussões demonstram “aval político das potências globais sobre o tema e levam a maior segurança para empresas tomarem atitudes e engajarem em projetos”.

Rebeca Lima entende que os compromissos do Acordo de Paris foram fortalecidos com a adoção do Pacto Climático de Glasgow. Analistas mencionam que do ponto de vista do processo intergovernamental e do direito público internacional a meta de 1.5°C está fortalecida. “Processos intergovernamentais multilaterais são complexos e não seguem necessariamente a lógica da celeridade necessária para a implementação das ações. Entretanto, isso não significa que não sejam válidos. Tais processos estabelecem os pilares para que quase 200 países tenham o mesmo objetivo. Como todas as decisões são adotadas por consenso, o voto do Mali ou da República Dominicana possuem o mesmo peso do voto dos Estados Unidos ou da Alemanha. É o fórum que os países podem cobrar os outros publicamente sobre a accountability dos compromissos”, define.

INSPIRAÇÃO
Que tipo de lição, e/ou inspiração ficou para os participantes da COP26, em particular o Brasil? Na opinião de Sonia Favaretto, o que fica de exemplo e inspiração para as empresas é que “vivenciamos um momento muito positivo, de vento a favor desta agenda de sustentabilidade”. A COP, segundo ela, apenas reforçou o que já vinha sendo planejado e implementado.

Para o Cebds, o setor empresarial brasileiro já atua rumo a uma economia verde. “Isso ficou muito claro na COP26, com a participação maciça das empresas, assim como da sociedade civil. O caminho até uma economia verde passa pela colaboração de todos os setores, e essa postura construtiva tem sido adotada pela nossa organização e suas associadas”, afirma Marina Grossi, observando que o Cebds procura auxiliar as empresas a alcançarem suas metas Net Zero até 2050, “inclusive com os desafios de redução das emissões no chamado escopo 3 e a participação em mercados de carbono, uma oportunidade para captação de recursos”.

Ao defender a “subida da régua” e o avanço nos acordos, Monica Kruglianskas lembra que para se chegar a um futuro Net Zero ainda falta chão pra se caminhar. Enquanto isto, Laura Albuquerque destaca a vivência ao longo da pandemia e a cobertura de imprensa interpretando que “houve avanço, mesmo que não na velocidade necessária”. Ela enxerga mudanças em processos, materiais e novas posturas sociais e reconhece que existe ainda um grande trabalho pela frente. Já o CEO da Moss se mostra satisfeito com o vulto que esta Conferência tomou, a ponto de influenciar o próprio negócio. “Antes as empresas demoravam a responder nossas demandas, agora não”.

De qualquer forma é preciso ter um pouco de paciência, pondera Célio Fernando Melo, ao argumentar que alguns dos consensos mundiais só ocorreram 50 anos após os primeiros movimentos globais. “O caminho das negociações internacionais costuma seguir a passos um pouco mais lentos, sobretudo considerando a natureza de seu aspecto, em que diferentes nações independentes buscam atingir acordos que estejam em consonância com diferentes agendas de governo”.

COP27
Analisada a Conferência de Glasgow, o que esperar, agora, do próximo encontro, no Egito, a COP27? “A própria escolha do Egito tem muito significado. O país é um grande exportador de petróleo e tem serias questões de violação dos direitos humanos. O foco deve ser na contínua redução da carbonização e no uso de combustíveis fósseis, bem como no desenvolvimento de veículos de financiamento para a transição rumo à economia verde”, conclui Luis Adaime.

A dirigente da WayCarbon destaca três pontos centrais: i) as novas e mais ambiciosas NDCs dos países que ainda não apresentaram sua revisão e, mesmo para os que apresentaram, a oportunidade de transformar mais; ii) a definição das regras dos mecanismos de mercado dentro do Artigo 6 que regularão globalmente a participação de países e empresas no mercado global de carbono e; iii) o financiamento climático global, os USD 100 BI anuais que continuam aguardando efetividade dos países, pois ainda estamos aquém do necessário.

Além disso, espero que o simbolismo de ser no Egito e que a sua localização geográfica na África pressione na pele as delegações presentes e traga urgência necessária principalmente na agenda de adaptação em relação ao aumento da frequência de eventos e condições extremas que vamos continuar a vivenciar como ondas de calor, risco de escassez hídrica, entre outros.

Na visão de Rebeca Lima, o principal ponto na COP27 deve ser “o aumento de ambição”. Apesar de os países terem apresentado NDCs atualizadas em preparação à COP26, “ainda estamos com uma conta de aumento de temperatura em 2,4°C”, ressalta. O fato dessa próxima COP ocorrer em solo africano, depois de seis anos em outros continentes, é muito representativo para a outra grande pendência: justiça climática – prossegue Rebeca. A produção de alimentos no continente pode reduzir em até 80% devido à mudança do clima e as necessidades de gastos com adaptações sobem cada vez mais, sem que eles sejam responsáveis por sequer 5% das emissões. “Não podemos fracassar no financiamento em adaptação”.

O economista Célio Melo espera que até a COP27 as nações consigam prospectar novas perspectivas de redução de emissões em seus diferentes setores. “Essa talvez seja uma das maiores oportunidades, visto que os impactos ambientais são globais em diferentes níveis e as soluções a serem criadas devem ser pensadas para além das fronteiras e nações”. Em relação ao Brasil, ele espera que o país apresente dados reais de seus compromissos, de forma a demonstrar que não se trata apenas de retóricas sem ações efetivas.

Finalizando, Marina Grossi comenta: “Três assuntos ficaram aquém do que poderiam e serão tema da próxima COP. Um deles é o financiamento climático, em que nações desenvolvidas contribuem financeiramente para que países em desenvolvimento adotem uma economia mais verde. Outro item é a regra de perdas e danos aos países mais vulneráveis. O terceiro são os objetivos de redução de emissões de curto prazo. Temos avanços, mas ainda há muito a fazer”.

JUSTIÇA CLIMÁTICA
Urgência, protagonismo e justiça climática são expressões correntes quando se fala com algum gestor corporativo no Brasil. Empresas situadas em um nível mais avançado de ESG, têm muito claras as demandas ambientais e sociais. São estes os casos da Natura e da Suzano, por exemplo, ouvidas nesta matéria.

“Diferentemente das edições anteriores da COP, as discussões mostraram de maneira mais nítida a conexão entre a conservação da biodiversidade e as mudanças climáticas ao passo que apresentaram Soluções Baseadas na Natureza (NbS, na sigla em inglês), com uma alternativa clara e potente para endereçar os desafios das mudanças climáticas, a importância de mecanismos do mercado de carbono que fortaleçam a conservação de biomas e a proteção de sua sociobiodiversidade nos termos do artigo 6 do Acordo de Paris”, destaca Denise Hills, diretora global de Sustentabilidade da Natura&Co.

Longe de ser questão resolvida, a pauta da COP26 apenas reconheceu o engajamento dos vários elos da sociedade civil e preparou terreno para se dar os próximos passos. Esta é a visão de Cristiano Oliveira, gerente executivo de Sustentabilidade da Suzano. “A mobilização da sociedade civil poderá nos guiar nesse movimento de transformação, de construção de parcerias e de diálogos pela frente. Encerrada a COP, começam os esforços para que consigamos acelerar o processo de descarbonização. Ainda tem muito a ser feito, pois a trajetória atual não nos coloca no caminho de 1,5ºC de aumento médio da temperatura global, a grande meta do Acordo de Paris, reafirmada em Glasgow”, constata.

Em sua visão, a implementação do mercado de carbono (regulado) no mundo deverá destravar o sistema de financiamentos “que pode dar origem a um dos maiores ciclos de investimento da história, com importantes impactos sociais, ambientais e econômicos para todo o mundo”.

Opinião compartilhada por Denise Hills, ao manifestar a crença de que as questões ambientais, como a conservação da floresta e a regulação de um mercado de carbono, precisam fazer parte de uma agenda de ações urgentes no Brasil. “É preciso alinhamento com a agenda global”, enfatiza ela, afirmando que os ganhos desta agenda “não seriam apenas em termos financeiros, mas também socioambientais e reputacionais”.

Cabe lembrar que a Natura é uma empresa Carbono Neutro desde 2007. “As emissões da nossa cadeia de valor que não conseguimos evitar são compensadas por meio de projetos socioambientais que atuam no mercado voluntário de créditos de carbono”, comenta a diretora da companhia, que sequencialmente aponta o reconhecimento da ONU para este programa de Carbono Neutro, desde 2019.

Nos últimos anos foi possível correlacionar esse trabalho com comunidades extrativistas da Amazônia, por exemplo, reconhecendo-as e remunerando-as pela manutenção da floresta em pé. De acordo com a empresa, auditoria realizada em 2020 verificou que a taxa média de desmatamento das 88 propriedades participantes correspondeu a 0,52% - um quinto da taxa média observada no entorno, que foi de 2,4%. Com isto, evitou-se a emissão de 73 mil toneladas de CO2 na atmosfera.

Além de promover a compensação, o programa alerta as empresas sobre a relevância de uma gestão completa, incluso mapeamento de todas as fontes de emissão, priorização do esforço de redução e, por fim, compensação das emissões que não podem ser evitadas. Desde o lançamento, além da Natura e do Itaú, outras empresas se uniram à iniciativa, como B3, MRV, Lojas Renner e Localiza. Mais de 1,46 milhão de créditos de carbono foram gerados nos quatro anos do programa e o tal está disponível para negociação entre as empresas participantes da Plataforma e os proponentes de projetos.

METAS
Até 2025 a Suzano pretende chegar a 40 milhões de toneladas de carbono líquido extraídas da atmosfera. Estabelecida como meta para 2030, está sendo antecipada. O anúncio foi feito na semana que antecedeu a COP26. “Essa meta, ainda mais ambiciosa, reforça o nosso compromisso de captura de carbono da atmosfera e comprova nossa percepção de que as mudanças climáticas são um tema prioritário. Por isso, convidamos outras empresas a seguirem o caminho de anteciparem suas metas”, assinala Cristiano Oliveira.

Cabe destacar que a Suzano já é uma companhia potencialmente geradora de crédito de carbono, além de ser climate positive. Ou seja, além de compensar as emissões de gases do efeito estufa de sua própria operação e de sua cadeia de valor, a companhia remove adicionalmente mais gases do efeito estufa (GEE) do que emite.

Em termos de política ESG, a Natura faz questão de afirmar que sua estratégia climática está conectada “à valorização da sociobiodiversidade, à promoção da bioeconomia da floresta e de soluções regenerativas”. Desde a criação do programa Carbono Neutro, em 2007, a companhia evitou a emissão de mais de 1,28 milhão de toneladas de carbono através dos projetos de redução de emissões. “Adquirimos mais de 4 milhões de créditos de carbono para compensar as emissões residuais através de 47 projetos no Brasil, Chile, Argentina, Peru, Colômbia e México”, ilustra Denise Hills.

Para compensar as 350 mil ton de CO2 anuais que a empresa ainda não conseguiu reduzir são comprados créditos de carbono de diversas fontes, como energia renovável, REDD+, Eficiência Energética e Manejo de Resíduos. A diretora global calcula que os projetos de compensação ajudaram a conservar mais de 10 mil hectares de florestas e reflorestamento, impactando diretamente 15.367 famílias. “Nosso próximo objetivo é zerar nossas emissões líquidas de carbono. Por meio de nosso modelo de negócios, iremos capturar e remover da atmosfera mais carbono do que emitimos, o que exigirá investimento e desenvolvimento de novas tecnologias alinhadas aos princípios de circularidade e regeneração”, pontua.

Fizemos a seguinte pergunta para as duas companhias, Natura e Suzano: Sobre o papel do setor privado, o que podemos esperar em termos de engajamento e compromisso das empresas e investidores para o futuro. Será este o caminho que vai compensar o gargalo do financiamento de projetos?

Natura
Como empresa, ao receber uma licença da sociedade para operar, é necessário encontrar meios de retribuí-la. Uma forma que a Natura encontrou de fazer isso é buscar a geração de impactos positivos para o mundo. Sabemos que a comunidade empresarial possui uma grande influência na agenda pública e na sociedade, então é extremamente importante utilizar esse poder para criar mudanças significativas. Afinal, os problemas ambientais, climáticos e sociais são sistêmicos e afetam diretamente o desenvolvimento da sociedade e equilíbrio do planeta.

O próprio Brasil, um país tão rico em recursos naturais, possui um grande potencial para impulsionar a própria economia de forma inovadora e sustentável. A partir do momento em que as empresas reconhecem seus impactos ambientais e sociais, é possível implementar iniciativas que visam reduzir, compensar ou até mesmo eliminar os impactos negativos, além de gerar oportunidades de negócios para solucionar esses desafios.

Para endereçar um problema tão complexo, precisamos de esforços coletivos para conseguirmos bons resultados e criar pontes. É necessário construir uma agenda que viabilize o progresso econômico em conjunto com a conservação do meio ambiente e é preciso envolver diversos atores nesse debate, como a agenda pública, iniciativa privada, públicos consumidores, organizações não governamentais e comunidades extrativistas.

As companhias que colocam a agenda sustentável como prioridade possuem, consequentemente, mais oportunidades de negócios e investimentos, já que esse tipo de prática transmite clareza e segurança para uma visão estratégica de riscos e oportunidades, além de atrair consumidores que estão cada vez mais conscientes sobre os impactos dos seus hábitos de consumo.

Há pouco mais de um ano, por exemplo, a Natura&Co lançou seu Compromisso com a Vida, plano robusto para enfrentar algumas das questões globais mais urgentes. Esse plano está dividido em três pilares que consideramos fundamentais para firmar um modelo de desenvolvimento que nos leve a um mundo mais próspero e justo: enfrentar a crise climática e proteger a Amazônia; defender os direitos humanos e a garantia de igualdade e inclusão; e abraçar a circularidade e a regeneração até 2030. Durante a COP26, por considerarmos o evento um momento-chave para acelerar a transição para uma economia carbono zero, e à luz de nosso Compromisso com a Vida, defendemos os seguintes pontos:

- Desmatamento zero na Amazônia: defendemos o estabelecimento de um compromisso entre diversos grupos e atores da política global, multisetorial e multilateral, para atingir o desmatamento zero na Pan-Amazônia até 2025.

- Rumo ao Net Zero: buscamos promover um compromisso entre grupos e atores da política global, multisetorial e multilateral, para descarbonização da economia, de forma que seja possível reduzir à metade as emissões até 2030, atingir Net Zero global em 2050 e limitar o aumento da temperatura média global a no máximo 1,5ºC.

- Mercado de Carbono com inclusão social: temos, entre outros projetos, o Carbono Circular, que neutraliza as emissões a partir da própria cadeia produtiva da companhia e remunera as comunidades do Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado (RECA).

- Bioeconomia com soluções baseadas na natureza: também defendemos que um mercado de carbono global deve priorizar modelos de compensação oriundos de Soluções Baseadas na Natureza (NbS, na sigla em inglês), garantindo a regeneração e a conservação da biodiversidade, dado seu potencial para a redução e remoção de carbono, e os benefícios que gera em termos de adaptação às mudanças climáticas.

- Justiça Climática e Direitos Humanos: a regulamentação do mercado de carbono global deve reconhecer o papel de comunidades indígenas, quilombolas e agricultores familiares na conservação ambiental, promovendo pagamentos por repartição de benefícios e conhecimento tradicional associado, reduzindo as desigualdades sobretudo na América Latina. Defendemos a criação de um Green Climate Fund, com o comprometimento de países desenvolvidos para com o financiamento e suporte à adaptação dessas populações aos efeitos desta crise, viabilizando o acesso a tecnologias de baixo carbono e energia renovável, garantindo a elas vida digna e pleno desenvolvimento.

Suzano
Como mencionado anteriormente, entendemos o importante papel das empresas e das organizações como catalisadoras desta agenda de transformação ambiental e social. Nós precisamos ser agentes transformadores da sociedade e contribuir para a construção de um futuro melhor. Para isso, é importante alcançarmos nossas metas, mas também engajarmos outros stakeholders na discussão desses temas e liderarmos movimentos que dêem sustentação a essa transformação.

Nós acreditamos que a emissões de títulos sustentáveis atrelados a metas ESG, por exemplo, serão uma grande aposta do futuro. O modelo é interessante para investidores e para empresas, além de impulsionar uma modelo de economia mais sustentável.

Em setembro de 2020, a Suzano se tornou a segunda empresa do mundo e a primeira empresa das Américas a realizar a emissão de um Sustainability-Linked Bond. Ao fazê-lo, conseguiu captar recursos na menor taxa da história da companhia e no melhor patamar até então registrado por empresas brasileiras para títulos com o mesmo prazo de vencimento (dez anos). Atualmente, 39% da nossa dívida está atrelada a esses instrumentos ligados à sustentabilidade, representando um aumento de 30 pontos percentuais quando comparado a 2019.

Ao investidor, a operação de SLB traz o benefício de atrelar seus recursos a operações que trarão impactos positivos à sociedade que, por sua vez, será favorecida por metas ambiciosas de redução de emissões, de menor consumo de água ou de mais diversidade dentro das empresas, por exemplo. Ou seja, é uma operação que traz benefício a todas as partes e que evidencia, de forma concreta, a confiança dos investidores em estimular as empresas a buscarem novas oportunidades no âmbito das finanças sustentáveis.

AGENDA
Não é demais lembrar que no próximo ano teremos eleições presidenciais no Brasil. Sobre esse tema, Cristiano Oliveira e Denise Hills têm opiniões semelhantes. Ambos acreditam que as questões sustentáveis deverão estar colocadas na agenda dos candidatos, entendendo que o país precisa assumir seu protagonismo no cenário global. Zerar o desmatamento ilegal deve ser uma das prioridades.


Continua...