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Ponto de Vista

BURNOUT: POR QUE É IMPORTANTE FALAR DE NOSSAS FRAGILIDADES?

Desde que lancei o meu livro: “Senhora de Si - Trajetória, aprendizados e lições de uma executiva desbravadora”, me surpreendi com a repercussão do assunto Burnout. Foi grande a quantidade de pessoas que me agradeceu pela transparência e a coragem por ter relatado o meu caso. Muitas me disseram que haviam passado por momentos similares ou que ainda estavam lutando para superar o problema. Sabia que estaria me expondo ao contar sobre um dos momentos mais difíceis pelos quais passei em minha vida. Problema com a saúde mental é assunto sério, relevante e ao que descobri, muito presente em nossas vidas neste Século 21. 

É claro que burnout não é um fenômeno novo, o meu foi em 2010, e talvez a pandemia COVID-19, tenha ajudado a jogar luz sobre o tema. O que acredito que deve mudar é como enxergamos e ajudamos as pessoas durante esse momento delicado, pois o assunto continua repleto de estigmas. Muitos pacientes preferem esconder, principalmente se forem profissionais bem-sucedidos. Ainda há pouco espaço para se falar e tratar das nossas vulnerabilidades – e não é apenas nas empresas.

Estive recentemente num evento da Board Academy, uma EdTech de formação e desenvolvimento de conselheiros, recomendada por Cida Hess, colunista desta Revista RI, para fazer uma conversa sobre burnout. Fiquei muito satisfeita com o nível da participação e do debate com colegas conselheiros e CEOs, o que culminou com o convite para escrever esse artigo.

Antes de qualquer coisa, precisamos lembrar que a Síndrome de Burnout ou síndrome de esgotamento profissional é um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico, resultante de situações de trabalho desgastantes, que demandam competitividade ou alta responsabilidade. Embora seja um distúrbio psíquico e está relacionado com o trabalho do indivíduo, essa condição afeta quase todas as facetas da vida da pessoa. Desde 1º de janeiro de 2022 a síndrome de burnout foi incorporada à lista de doenças ocupacionais reconhecidas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e atinge cerca de 32 milhões de brasileiros.

Para fazer o diagnóstico, o profissional de saúde, psicoterapeuta ou psiquiatra, geralmente identifica pelo menos três sintomas, embora possa haver outros: exaustão, menor identificação com o trabalho e a sensação de reduzida capacidade profissional.

Antes de contar sobre como aconteceu comigo, devo ressaltar que, como não sou profissional da saúde, recomendo fortemente que, se houver dúvida, consulte o quanto antes o seu médico ou um especialista. Para mim, iniciou com sérias alterações no sono (sinal de alerta), ansiedade, depressão, problemas de concentração, diminuição da produtividade, falhas de memória, dor de cabeça, cansaço constante (que não passa após o descanso), irritabilidade e distúrbios gastrointestinais.

No último SXSW (South by Southwest), realizado de 10 e 19 de março, em Austin, Texas, e conhecido como o maior festival de inovação do mundo, Mary Beth Albright, colunista do jornal The Washington Post, sobre saúde, comida, viagens e livros, citou comprovações científicas de que nossos intestino e cérebro estão conectados. Mary Beth disse que nossa flora intestinal pode prevenir várias doenças psíquicas e que ansiedade já é tratada a partir de probióticos. A forma como nosso corpo metaboliza a comida depende muito de sua flora intestinal e uma das maneiras de a manter saudável seria consumir trinta tipos diferentes de vegetais por semana. Mary Beth disse que é importante se preocupar não só com o QUE se come, mas também COMO se come: olfato, visão e paladar ajudam muito a manter um micro bioma adequado. Quem, assim como eu, já fez curso de mindfulness, reconhecerá a importância de se estar 100% presente no momento da alimentação, prestando atenção, se permitindo esse tempo de tranquilidade e foco.

Não é à toa que a deterioração da alimentação moderna coincida com a crise de saúde mental na sociedade.

A pós-pandemia chegou, mas alguns maus hábitos do período crítico do home office parecem ter sido incorporados às relações de trabalho. Como, por exemplo, acionar qualquer pessoa via WhatsApp ou e-mail a qualquer hora do dia ou da noite. E pior, ficar esperando uma resposta. É preciso refletir sobre o assunto que esteja sendo tratado e pensar se ele merece mobilizar alguém fora do horário de trabalho.

Quando cruzamos essa fronteira e trouxemos o trabalho para dentro de casa por causa da pandemia, muitos gestores esqueceram que o expediente deve terminar para o bem do próprio negócio. As pessoas precisam de um tempo para se recarregar, descansar e desconectar.

Falamos muito sobre ESG, mas não há como um negócio ser sustentável hoje se não reconhecer como as pessoas se sentem de verdade.

Susan David, psicóloga de Harvard, autora do livro Agilidade Emocional, diz que eventualmente todo executivo acaba entrando no túnel escuro, mas recuperar a saúde mental não significa necessariamente buscar a luz no fim do túnel, e sim aprender a enxergar melhor no escuro, uma clara alusão à importância do autoconhecimento. “Você pode se encostar na parede lateral do túnel e descansar. Não há problema em se dar um tempo, em estender a mão para ver quem mais está no túnel. Não há problema em pedir ajuda”, diz ela.

Será que hoje temos mais para lidar com as nossas emoções? As chamadas soft-skills estão em alta demanda para conselheiros, mas as habilidades emocionais, que sempre foram críticas para todos nós, historicamente foram sendo deixadas de lado. Não são ensinadas nas escolas e muito menos nas organizações. Lidar com as emoções humanas normais, incluindo as difíceis que vêm com a vida, com o fracasso e com a doença, de alguma maneira era evitado. Essa é uma das grandes tragédias do nosso tempo.

A pandemia escancarou que ninguém estava no controle do vírus e desmascarou a maior ilusão de todas: a verdade é que nunca estamos no controle.

Somos saudáveis, de repente adoecemos, amamos e perdemos, nossas carreiras estão indo bem, até que uma mudança na empresa, nos obriga a encarar que aquele lugar não é mais para nós. Vivemos num mundo em que existe a nossa fragilidade e a fragilidade da vida!

Apesar disso, ainda há pouco espaço nas empresas para se falar de nossas vulnerabilidades. Quanto mais ascendemos em nossas carreiras no mundo corporativo, mais solitários ficamos. Quem irá discutir as suas “fraquezas” com um potencial concorrente interno? Haja estoicismo!

Depois da pandemia, 75% das pessoas dizem que seu bem-estar diminuiu. As taxas de depressão e ansiedade aumentaram exponencialmente. A cada 40 segundos alguém se suicida no mundo, diz a OMS. E o que é mais estarrecedor: o suicídio é evitável!

Fica evidente para mim que é preciso desenvolver as habilidades humanas de uma maneira estratégica, sistemática e escalável. Pela primeira vez na história do desenvolvimento corporativo estamos tendo conversas reais sobre habilidades como empatia e compaixão.

Por anos, as organizações abrigaram líderes ruins e se justificavam dizendo que eles produziam bons resultados, sem se preocupar com o estado das pessoas em suas equipes. As organizações não podem mais esconder esses líderes tóxicos, pois haverá impactos no bem-estar, engajamento, saúde e na cultura organizacional. Estamos diante da grande oportunidade de ressignificar o mundo do trabalho e mitigar o fenômeno conhecido como a “Grande Renúncia” dos jovens talentos.

Não há mais espaço para o velho líder que nunca erra, não admite ter fraquezas, exige cada vez mais de sua equipe sem nenhuma contrapartida!


Deborah Wright
é administradora de empresas, com mais de 30 anos de experiência, ocupou posições de presidência executiva durante 15 anos. Atua em Conselhos de Administração há 20 anos e, atualmente, é conselheira do IBGC e do Banco Santander do Brasil. Autora do livro: Senhora de Si (Ed. Labrador).
dw@deborahwright.com.br


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