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Opinião

MERCADO FINANCEIRO & DIVERSIDADE

Vivemos em uma sociedade com diversos vieses e acabamos nos surpreendendo com situações que poderiam ser comuns. Por exemplo, ver uma mulher no comando de uma empresa, gestora de um grande fundo de investimento, ou numa mesa de trading. Quando vemos homens nessas posições, não somos tomados por sentimento de surpresa; mas, quando vemos uma mulher em um desses cargos, não é incomum a sensação de admiração por algo um tanto quanto inesperado. Chama atenção, e, ainda que positivamente, fica a reflexão: por que elas ainda são uma pequena minoria? 

No Brasil, a participação das mulheres no mercado de trabalho é de 55%, acima da média global, porém a participação em gestão de recursos financeiros é de apenas 40%. 

Será que não há mais mulheres que gostariam e que têm capacidade para assumir tais posições? Se sim, por que ainda há tão poucas? 

Uma das principais razões, entendemos que seja cultural: menos mulheres escolhem formações que geralmente direcionam para o mercado financeiro, como engenharia ou economia; ou, mesmo que tenham cursado tais faculdades, optam por carreiras a priori mais tranquilas, menos competitivas. Há também a questão da maternidade: enquanto no Brasil tradicionalmente é a mulher que tira licença maternidade, em alguns países como Alemanha e nos países nórdicos, o incentivo é para que pai e mãe tirem licença por alguns meses após o nascimento do filho. Isso mitiga o impacto da maternidade na carreira da mulher. Além disso, há estudos que demonstram que mulheres tendem a ser mais conservadoras ao se candidatar para uma vaga, pedir uma promoção ou aumento. Esse perfil também faz com que, para uma mulher subir na carreira, ela precise ter uma performance superior ao dos demais candidatos homens.

Foi pensando nessas questões que a CFA Society Brazil, em parceria com o CFA Institute, lançou há três anos o Young Women in Investment.

O CFA Institute é a maior associação global de profissionais de finanças e investimentos, uma organização internacional sem fins lucrativos, com mais de 190 mil membros em todo o mundo. Tem o propósito de criar condições para que os interesses dos investidores estejam em primeiro lugar, os mercados funcionem da melhor forma e as economias cresçam, beneficiando toda a sociedade com uma indústria de investimentos de alto nível. E a CFA Society Brazil é a associação local que reúne os profissionais detentores da certificação CFA, com a missão de liderar a profissão de finanças e investimento no Brasil por meio da promoção dos mais elevados padrões de ética, educação e excelência profissional. Faz parte de uma rede de 160 CFA Societies localizadas em mais de 70 países; no Brasil são mais de 1.300 membros, que atuam em diferentes segmentos do mercado financeiro. Destes, somente 10% são mulheres.

O Young Women in Investment (YOUWIN) é um programa inovador, que tem como objetivo incentivar a inserção das mulheres no mercado financeiro. Consiste em um curso gratuito online, para jovens mulheres universitárias, com conteúdo técnico e aulas de soft skills. Após o curso de 3 semanas, as jovens realizam estágio em uma instituição financeira, de no mínimo 6 meses. Adicionalmente, cada uma recebe mentoria de um membro da CFA Society Brazil. Entre professores, organizadores e mentores, o programa já contou com mais de 100 voluntários. Além disso, recebemos o apoio de 28 instituições parceiras, que ofereceram estágio para as alunas depois da conclusão do curso. Uma das vantagens para os empregadores é poder contratar estagiárias que já receberam um treinamento robusto sobre as principais áreas do mercado financeiro. Para as jovens, é extremamente valiosa a oportunidade de interagir com professores voluntários que atuam em diferentes áreas do mercado, além da participação em uma rede de contatos valiosa, não somente com as demais alunas da turma como também com as formadas nas edições anteriores. 

O programa tem tido bastante procura, já recebeu mais de 8.000 inscrições, e os resultados são bastante gratificantes. Desde seu lançamento, mais de 90 alunas concluíram o curso, e seus depoimentos chamam atenção, como uma que manifestou que foi “sem dúvida, uma das melhores experiências da minha vida”. Outra participante contou que “não pensava em trabalhar no mercado financeiro, pelo medo de não ser boa o suficiente e por não ter referência de mulheres na área”. Mas que, após concluído o programa, manifestou que “uma das principais contribuições do YOUWIN foi dar a confiança de que podia trabalhar na área que desejasse”. 

Outra iniciativa recente do CFA Institute para promoção de maior diversidade no mercado financeiro foi o estabelecimento, em fevereiro de 2022, do Código de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI Code), um código de adesão voluntária, que engloba a diversidade de gênero, etnia e religião. Inicialmente disponível nos Estados Unidos e Canadá, será expandido para as demais regiões. O código reconhece que a diversidade de perspectivas gera melhores resultados e que uma indústria inclusiva irá melhor servir nossa sociedade. Atualmente, cerca de 160 instituições, que fazem a gestão de aproximadamente US$ 11 trilhões, são signatárias do Código.

Acreditamos que cada ação com objetivo de promover maior diversidade na sociedade seja válida, não importando o tamanho e alcance. Elas se somam e contribuirão para uma sociedade com oportunidades mais equilibradas a todos os cidadãos, independente do gênero ou etnia.

Ruth Walter
é Board Member da CFA Society Brazil.
ruth.walter@cfasociety.org.br

Flavio Papelbaum
é Vice-Presidente da CFA Society Brazil.
flavio.papelbaum@bndes.gov.br


Continua...