Ponto de Vista

RETOMADA DOS IPOs: COMO AS EMPRESAS DEVEM SE PREPARAR?

Após um período de mais de dois anos marcado pela escassez, considerada a maior desde 1998, o tão aguardado retorno das Ofertas Públicas Iniciais (IPOs) à bolsa de valores brasileira, representada pela B3, está projetado para este ano. Essa grande expectativa, que tem gerado entusiasmo em todo o mercado financeiro, ganha força à medida que a bolsa demonstra sinais de revitalização, alcançando níveis históricos na última semana de 2023.

Mas as boas perspectivas não se baseiam somente nisso, diversos outros fatores sinalizam um ambiente promissor para a retomada dos IPOs no Brasil. A inflação mais controlada, a perspectiva de queda da taxa básica de juros (Selic) e aprovação da reforma tributária contribuem para a formação de um cenário que pode estimular o retorno de empresas ao mercado de capitais. Além disso, esses elementos, somados à captação de recursos via follow-on, podem ser uma resposta eficaz para a redução do endividamento das empresas, que enfrentaram muitos desafios com o aumento dos juros e da inflação.

Entretanto, apesar da esperança e euforia, precisamos manter o pé no chão. No dia a dia da MZ, que está inserida e acompanha este mercado há 25 anos, buscamos adotar uma visão cautelosamente otimista. É improvável que a gente consiga replicar o cenário extremamente positivo que tivemos entre os anos de 2020 e 2021, mas acreditamos sim que a Bolsa Brasileira pode atingir bons patamares em 2024. 

Diante desse panorama, surge um imperativo para as empresas: a necessidade de se prepararem para as oportunidades que inevitavelmente surgirão, principalmente as companhias que visam realizar IPOs. O mercado brasileiro é conhecido por suas aberturas e fechamentos de janelas de oportunidades de forma rápida e, muitas vezes, imprevisível. Para estar à altura desse desafio, as empresas devem adotar uma postura proativa.

No atual cenário estar pronto, é a melhor estratégia para aproveitar janelas de oportunidades
Nesse sentido, a primeira e crucial recomendação para as companhias é começar a se adequar às exigências contábeis da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) desde já. Transparência e conformidade são pedras fundamentais para ganhar a confiança dos investidores e stakeholders. A CVM estabelece diretrizes rigorosas que incluem a divulgação de informações financeiras precisas e o cumprimento de normas contábeis específicas. Iniciar esse processo com antecedência permite que as empresas revisem suas práticas e garantam que estão alinhadas com as expectativas regulatórias.

Além da conformidade com as normas contábeis, a implementação de práticas de governança também é um passo muito importante na preparação para um IPO. Empresas que buscam abrir seu capital devem adotar estruturas de governança usuais para aquelas listadas em bolsa. Comitês de auditoria, conselhos independentes, e políticas claras de tomada de decisões são aspectos essenciais para atender às expectativas dos investidores e reguladores. Essa postura proativa não apenas agiliza o processo de adaptação, mas também fortalece a gestão interna e reduz riscos associados.

Elaborar uma tese de investimento robusta é outro elemento-chave para o sucesso na preparação para um IPO. Investidores estão cada vez mais criteriosos, e a concorrência por recursos é acirrada. As empresas devem articular de maneira clara e convincente os fundamentos que tornam seu negócio atrativo. Isso envolve uma análise detalhada dos indicadores financeiros, uma projeção realista do potencial de crescimento e uma narrativa coerente que destaque a singularidade e a competitividade da empresa no mercado.

Um plano de negócios sólido é, por sua vez, a espinha dorsal dessa tese de investimento. Esse plano deve abranger não apenas a estratégia de negócios, mas também metas financeiras tangíveis, estrutura de capital, alocação de recursos e uma visão clara da utilização dos recursos obtidos com o IPO. Investidores desejam entender não apenas o potencial de retorno, mas como a empresa planeja atingir esses resultados. A apresentação de um plano de negócios abrangente não apenas atrai investidores, mas também estabelece uma base sólida para a gestão futura.

Outro aspecto a considerar é a escolha dos assessores. Empresas que buscam realizar IPOs devem selecionar assessores experientes e qualificados, incluindo bancos de investimento, advogados e contadores especializados. Essa equipe desempenha um papel crítico na preparação, execução e pós-IPO, garantindo que a empresa esteja em conformidade com os regulamentos, maximizando o valor da oferta e gerenciando as expectativas dos stakeholders.

A agilidade é uma qualidade que se destaca em meio a esse cenário dinâmico. O mercado financeiro brasileiro é conhecido por suas mudanças rápidas, e as empresas que conseguem se adaptar e responder prontamente a essas mudanças estão em vantagem. Aqueles que estão preparados podem se beneficiar da falta de valuations relativos de comparáveis, do aumento da atenção do mercado e da disputa pelos recursos dos investidores.

Em resumo, podemos dizer que as perspectivas para a retomada dos IPOs em 2024 são animadoras, mas a preparação é crucial para o sucesso nesse ambiente desafiador. Empresas que iniciam cedo o processo de adequação às normas contábeis, adotam práticas de governança, elaboram teses de investimento sólidas e constroem planos de negócios abrangentes estão em uma posição estratégica para capitalizar as oportunidades que surgirão. 

E claro, tudo isso deve ser comunicado ao mercado de uma forma eficaz. Por isso, por último, mas não menos importante, o conselho que deixamos é: invista em comunicação financeira. Ao levar sua mensagem da maneira correta, você demonstra preocupação com a transparência, atrai investidores, gerencia expectativas, garante conformidade regulatória, mantém visibilidade de mercado, e possibilita o acesso contínuo ao capital. Uma comunicação eficiente é crucial durante a abertura de capital e ao longo de toda a jornada pós-listagem para construir confiança e sucesso a longo prazo.

O retorno dos IPOs não apenas representa uma janela para captação de recursos, mas também uma oportunidade para as empresas demonstrarem sua solidez e atratividade aos investidores, consolidando sua presença no mercado de capitais brasileiro.

PH Zabisky
é CEO da MZ.
ph@mzgroup.com

Cassio Rufino
é CFO & COO da MZ.
cassio.rufino@mzgroup.com


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