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Gestão

A MATURIDADE NA TOMADA DE DECISÃO

Você já pensou quantas vezes tomou decisões hoje? Tomamos em média mais que 35 mil decisões ao dia, simples e quase automáticas ou mais complexas. Com maior frequência, é exigido das lideranças que se envolvam em decisões que perpassam pela definição de estratégias, oportunidades de investimento ou desinvestimento, metas de negócios, negociações com clientes, alternativas de melhoria operacional, eficiência de custos e muitas outras situações que exigirão assertividade.

Por certo, decisão é coisa séria e melhor que seja tomada com base em dados e fatos. Entretanto, o que se observa em algumas empresas são cenários pouco explorados, uma visão superficial originada de análises enviesadas. No ambiente empresarial, complexo e acelerado, as competências de gestão devem ser refinadas continuamente para que a prática da tomada de decisão aponte o caminho mais alinhado aos interesses dos stakeholders.

Em agosto de 2022, participei da 5ª edição do Data Driven Business, o maior evento de data analytics do país realizado pela Neoway em parceria com a B3, pautando como tema central “Transforme dados em visão de futuro”. Esse evento trouxe o renomado Daniel Kahneman, psicólogo e autor do estudo sobre economia comportamental - Behavioral Economics - que lhe rendeu o prêmio Nobel de economia em 2002. Kahneman é um dos maiores autores sobre psicologia econômica e apresentou-nos uma nova face para a não-racionalidade dos indivíduos, ilusões cognitivas, a influência dos sentimentos e a avaliação das experiências no processo de tomada de decisão. Os livros ‘Thinking, Fast and Slow’ (2011) e ‘Noise’ (2021), apesar de apresentarem a diferença de 10 anos entre seus lançamentos, demonstram que o estudo sobre o funcionamento da mente humana nas tomadas de decisões é extremamente aplicável para buscarmos melhor visão de futuro dos negócios.

Considerando que somos influenciados, influenciamos ou tomamos decisões o tempo inteiro, e ainda, que somos inundados de dados em profusão, os estudos a respeito de como tomamos decisões são, de fato, pertinentes. Somos envolvidos por uma quantidade inimaginável de dados, elementos brutos com baixo significado, desvinculados da realidade e frágeis para embasamento na tomada de decisão. Dados são a base para as informações que por sua vez, são base para o conhecimento. Dados sem qualidade levam a informações e decisões também sem qualidade. O conhecimento é a informação processada por aqueles que agregam valor pelo uso do seu modelo mental. É valioso, por ser a interpretação da informação inserida em um contexto. Por essa razão, é fundamental tratar os dados, as informações e o conhecimento para que carreguem um significado. Tal processo não é dos mais simples. As características de cada indivíduo com seus modelos mentais podem trazer distorção e ruído ocasionando em dificuldades na escolha de melhores alternativas. O desafio na tomada de decisões está em transformar dados - informação - conhecimento, minimizando as interferências nesse processo.

No ambiente das empresas, o analytics atua na geração e na automação da informação a favor dos negócios. Essa é engenharia de dados capaz de organizar toda essa massa de informações e dar além de sentido, respaldo ao processo de tomada de decisão. Estamos na era do big data, da inteligência artificial e do machine learning. A expectativa é que as conexões em fibra óptica de alta velocidade, as redes móveis 5G, o edge computing e a aceleração da internet das coisas turbinem ainda mais essa profusão de dados em uma escala sem precedentes na história.

Análises preditivas baseadas em inteligência artificial ou feitas por softwares específicos conseguem mostrar um cenário muito próximo do real. "Os dados são hoje ativos valiosos para qualquer empresa e sua análise auxilia os gestores a tomarem decisões não mais baseadas no feeling, mas em informações confiáveis, levando em conta uma série de variáveis", afirma André Miceli, professor e coordenador do curso de transformação digital da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O tratamento eficaz dessa grande massa de dados agregada a tecnologia é uma boa preparação para tomar uma decisão eficiente. Melhores decisões podem ser alavancas otimizadas nas empresas. Aquelas que estiverem preparadas para agregar a tecnologia adotando a visão holística sobre a ampla gama de fatores que impactam no seu core business, terão maior força no mercado e amplificarão valor de seus negócios estratégicos. Não há dúvida que as empresas precisam, cada vez mais, investir em sistemas de gestão capazes de trazer agilidade e coerência às informações.

Para entender o futuro precisamos olhar o passado no contexto do presente. O ambiente de negócios está suscetível a mudanças aceleradas e profundas que transformam o papel dos gestores e da alta direção nas empresas exigindo uma postura diferente, inclusive do conselho. É tendência que os conselheiros se posicionem com maior proatividade e realizem recomendações relacionadas ao alinhamento estratégico nas empresas onde atuam. Afinal, cabe ao conselho cuidar do pensamento estratégico direcionando a visão aos novos negócios e oportunidades. A 5ª edição do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC cita sobre a evolução do ambiente de negócios. “Nos últimos anos, sem diminuir a importância dos sócios e administradores, a governança ampliou seu foco para as demais partes interessadas, demandando dos agentes de governança corporativa um maior cuidado no processo de tomada de decisão.” No artigo ‘O papel do conselho de administração na estratégia das organizações”, o IBGC orienta sobre a atenção ao pensar estratégico, e às recomendações para que conselheiros reconheçam as armadilhas comuns nas decisões que protejam e valorizem a organização. É vital que as empresas invistam na sustentação das necessidades de informação dela própria e capazes de trazer embasamento subsidiando os temas que orbitam nas agendas de conselho. Afinal, cabe aos conselheiros o dever da diligência e para tanto, precisam trabalhar os assuntos de cada pauta com segurança, carregando suas análises prévias. Por certo, os conselheiros ficam presos somente ao material recebido e consultam outras fontes a ponto de transformarem a informação recebida em conhecimento próprio. Segundo Paulo Conte Vasconcelos, conselheiro certificado pelo IBGC, “o conselheiro deve ser cético por natureza. Precisará analisar com cuidado e ter responsabilidade sobre tudo que envolva decisão. É parte inquestionável das atividades como conselheiro, analisar o material, questionar de forma inteligente, refletir sobre as consequências da decisão, olhar sobre diferentes cenários etc. Este, poderá vir a tomar uma decisão errada, mas nunca por falta de diligência.”

A qualidade das decisões estratégicas que promovem a evolução dos negócios e a inovação em gestão devem ser embasados em conhecimento e isentos de julgamentos ou interpretação imprecisa. Deixando de vez o feeling em uma posição secundária, os conselhos devem incentivar que as empresas sejam mais ‘data driven’, ou seja, que tenham seus processos orientados por dados como um caminho natural e evolutivo do mercado, aproveitando melhor as tecnologias e a inteligência artificial. A clusterização de grandes massas de dados gera relevância e conhecimento na tomada de decisão. A tecnologia adotada na estruturação de dados em informações consistentes, acabam tendo sentido se analisados e trabalhados de forma diligente.

Conhecimento não pesa e sem inteligência estratégica de dados, nós e nossas empresas, certamente estaremos fadados a deixar dinheiro na mesa. Por esse motivo, faz sentido reafirmar que a maturidade na tomada de decisão com mais conhecimento e menos feeling promoverá a transformação empresarial trazendo impacto positivo aos negócios da empresa.

Luciana Tannure
é engenheira formada pela PUC-RJ com MBA em Gestão Empresarial pela FGV e pós-graduação em Finanças Corporativas e Projetos e Gerência de Sistemas. Conselheira Consultiva certificada pela Board Academy BR, é advisor em startup. Executiva de Projetos Estratégicos na Vivo.
luciana.tannure@gmail.com


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