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Finanças Pessoais

NUNCA FAZER DÍVIDAS! SERÁ MESMO?

Embora carregada de conotações negativas, as dívidas podem exercer um importante papel no crescimento patrimonial das famílias. Infelizmente, boa parte do endividamento familiar no Brasil ocorre por razões que não são as mais acertadas do ponto de vista das finanças pessoais.

No imaginário popular, o termo dívida é carregado de conotações negativas, apesar disso, poucas são as famílias que conseguem evitá-las. De fato, o endividamento das famílias brasileiras, apesar de ter reduzido um pouco, está em 77,4% em agosto de 2023, sendo que 12,7% não terão condições de pagar segundo a PEIC – Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Ora, se algo visto como tão negativo é assim tão presente na vida das famílias brasileiras, o papel das dívidas merece ser observado mais a fundo. Muitas vezes vemos educadores financeiros falarem para nunca se fazer dívidas. Será que dívidas são sempre ruins?

As causas do endividamento podem ser classificadas, basicamente, em quatro tipos:

1) descontrole financeiro;
2) necessidades maiores;
3) acesso antecipado a bens e serviços;
4) crescimento patrimonial.

O endividamento ocorre sempre por uma antecipação do recebimento no fluxo de caixa: o dinheiro entra no caixa antes, por empréstimo, para ser pago depois. Em troca desta antecipação, paga-se juros. Mesmo quando fazemos o famoso crediário, muito comum em lojas, estamos tomando dinheiro emprestado da própria loja ou de uma financeira, para comprarmos agora e pagarmos depois em prestações. E se alguém falar que comprou “em 12 vezes sem juros”, pode ter certeza que os juros estavam embutidos no preço.

Retomando às causas do endividamento, vemos que a causa 1, descontrole financeiro, ocorre quando a família não avalia se vai ter recursos de caixa suficientes para um determinado gasto, realiza este gasto e depois não consegue pagar na hora. O descontrole financeiro pode tornar-se crônico quando a família assume despesas maiores que as receitas de forma não pontual, mas recorrente. Não há grandes problemas em um mês ter despesas maiores que as receitas, se a diferença puder ser saldada nos próximos meses, com receitas maiores que as despesas ou com recursos acumulados previamente. Mas incorrer frequentemente em despesas maiores que receitas pode levar à inadimplência, perda do crédito e danos pessoais, legais e psicológicos sérios.

A dívida que ocorre por necessidades maiores (causa 2) em geral está relacionada a algum imprevisto grave, como uma perda súbita de uma fonte de renda, um problema de saúde ou acidente que gerou gastos substanciais. Em geral, este tipo de dívida é saldado através da liquidação patrimonial, como com a venda de um imóvel ou veículo, ou no médio e longo prazos com a recuperação das fontes de renda e obtenção de um financiamento de baixo custo.

A causa 3, acesso antecipado a bens e serviços, é uma antecipação do consumo, visando o benefício auferido por este. Em geral, dívidas assim estão associadas a valores altos, como uma grande viagem, troca de carro, uma festa de casamento ou formatura. O que caracteriza este tipo de dívida é que, embora o montante da dívida seja elevado, o devedor em geral dispõe das condições para pagá-la dentro do prazo previsto, desde que mantidas as condições do momento da contratação da dívida. É importante considerar que as condições podem mudar, como a perda do emprego, por exemplo, levando ao descontrole financeiro. Algumas vezes vemos a contratação de dívidas elevadas por conta de uma perspectiva de melhoria das condições, que pode não ocorrer, o que, na realidade, é descontrole financeiro também.

Por fim, vemos a causa 4, crescimento patrimonial. Embora seja correntemente utilizada por empresas, raramente vemos nas finanças pessoais o uso consciente da dívida para crescimento patrimonial. A ideia básica do uso da dívida para crescimento patrimonial é adquirir algo que valha mais do que o custo da dívida (montante mais juros). Tecnicamente, este mecanismo é conhecido por alavancagem; contrai-se um passivo (dívida) para adquirir um ativo que se valorizará ou gerará renda, superando o passivo mais seu custo. Isso pode ser feito de diferentes formas.

Uma pessoa pode financiar a compra de um carro para trabalhar como motorista de aplicativo. Espera-se, num cálculo superficial, que a receita gerada com o trabalho permita o pagamento das prestações do carro, com alguma sobra. Mas a conta real é um pouco mais complexa: o carro sofre depreciação e ainda gera custos adicionais, como manutenção, seguro e licenciamento. No fim, é preciso calcular se o valor residual do carro para venda no mercado secundário mais a renda obtida com o aplicativo cobrem todos os custos envolvidos mais as despesas com juros das prestações; a parte da prestação que é amortização da dívida não entra na conta, pois é incorporada no valor residual do carro. Um cálculo ainda mais sofisticado envolveria também o custo de oportunidade, que é o custo da opção da qual se abre mão. No caso, haveria incidência de custo de oportunidade caso a pessoa utilizasse um recurso de uma aplicação financeira para dar entrada no carro; o custo de oportunidade seria o juro que estaria deixando de ganhar. Também haveria custo de oportunidade caso a pessoa deixasse outra atividade remunerada para trabalhar como motorista de aplicativo; o custo de oportunidade seria a diferença na renda recebida.

O mercado financeiro também oferece formas de fazer alavancagem. É possível por exemplo operar “vendido”, ou seja, vende-se um ativo que não possui na expectativa de comprá-lo mais barato no futuro, ganhando com a diferença de preços. Entretanto, esta é uma operação de alto risco e com limites regulamentares.

Entretanto, a forma mais simples de realizar alavancagem em finanças pessoais é através do financiamento imobiliário. Por ser uma forma de financiamento de baixo custo, o financiamento imobiliário torna-se um passivo barato. O imóvel adquirido pode valorizar-se, o que por si só já garante um retorno patrimonial positivo. Mas também pode ser alugado, gerando renda, ou mesmo servir como moradia, poupando o aluguel. Em alguns momentos da economia, é possível conseguir financiamento imobiliário a uma taxa de juros inferior a de ativos financeiros, como títulos do tesouro, por exemplo. Em situações assim, é mais interessante financiar o imóvel, mesmo dispondo de recursos financeiros para comprá-lo a vista, ganhando com a diferença positiva nas taxas de juros.

Portanto dívidas não são necessariamente ruins; algumas vezes são apenas necessárias; outras vezes, estratégicas, mas devem ser analisadas com critério para não incorrer em endividamento excessivo e descontrolado.

Nota: A íntegra da PEIC - Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor realizada pela CNC em agosto de 2023: https://static.poder360.com.br/2023/09/relatorio-peic-2023.pdf


Rodrigo Franco Gonçalves
é Consultor financeiro. Doutor em Engenharia de Produção. Professor de pós-graduação em Engenharia de Produção da Universidade Paulista e Escola Politécnica da USP.
rofranco@osite.com.br


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