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Investidores não se inspiram em promessas, mas em sinalizações concretas de que seu capital será bem alocado, protegido e multiplicado. Por isso, para eles é importante avaliar os mecanismos, processos, tendências e riscos das empresas capazes de influenciar os resultados, dentre os quais, com ênfase, a governança corporativa.
Nesse contexto, a pesquisa “Perspectiva dos conselheiros e executivos – ambiente de negócios e governança corporativa (3ª edição – 2026)”, do IBGC, apresenta informações relevantes para aqueles que aportam recursos no mercado de capitais. A amostra confere robustez à conclusão. Foram ouvidos 190 profissionais (65,3% conselheiros e 34,7% diretores-executivos) residentes no Brasil, com forte presença de grandes companhias: 32,6% das organizações faturam acima de R$ 1 bilhão.
Porém, há diversidade: 19,5% têm receita de até R$ 20 milhões; 17,4% entre R$ 20 milhões e R$ 100 milhões; 16,3% entre R$ 300 milhões e R$ 1 bilhão; e 14,2% entre R$ 100 milhões e R$ 300 milhões. Ou seja, não se trata de uma fotografia restrita a um único perfil empresarial.
Dentre os aspectos considerados centrais da pesquisa estão práticas relacionadas à diretoria, como avaliação, sucessão e remuneração, apontadas por 42,9% dos respondentes. Logo atrás vêm os procedimentos e a estrutura do conselho, como regimento interno, avaliações e composição (41,1%), além do desenvolvimento de competências dos seus membros (31,9%). A mensagem é clara: governança não é mais apenas compliance, mas tambémarquitetura de poder de decisão, sucessão e qualidade na gestão.
Outro dado mostra que 85,3% dos conselheiros e executivos ouvidos acreditam que suas organizações provavelmente aprimorarão a governança em 2026; 49% consideram essa intenção provável e 36,3%, muito provável. Em um ambiente de negócios mais desafiador, a resposta das lideranças é fortalecer as estruturas de decisão. Entretanto, o levantamento expõe um paradoxo. Para 36,8% dos entrevistados, o principal obstáculo ao aprimoramento da governança é a percepção de que ela já está “em nível adequado”, sem necessidade de evolução. Trata-se de um risco latente. Em 2024 e 2025, a dúvida recaía sobre a relação custo-benefício da governança. Em 2026, o problema passa a ser a complacência.
Esse dado é especialmente sensível quando confrontado com os desafios emergentes. Inteligência artificial (60,4%), inovação (46,5%) e gestão de talentos (45,7%) estão entre os principais temas debatidos nos conselhos. No entanto, um quinto dos conselheiros (20,4%) sequer discute o desenvolvimento das próprias competências. É um descompasso evidente, pois se cobra sofisticação estratégica da organização, mas nem sempre se investe na qualificação contínua de quem decide, orienta e é guardião dos valores e procedimentos das empresas.
A lacuna amplia-se quando o tema é mudança climática. Para 41,2% dos respondentes, esse é o assunto em que os conselhos demonstram maior despreparo. Além disso, 36,8% não discutem planos de mitigação de gases de efeito estufa e 35% não tratam de adaptação climática. Apenas 2,6% prevêem investir em planos de mitigação e adaptação nos próximos 12 a 18 meses. Num mundo em que riscos climáticos já impactam cadeias produtivas, seguros e acesso a capital, ignorar essa pauta expõe um risco potencial.
Há, ainda, nuances setoriais reveladoras. Na área financeira, a prioridade é o desenvolvimento de competências dos conselheiros (61,5%), sinalizando percepção de que sofisticação regulatória exige preparo técnico. Em construção e transporte, o foco está no relacionamento entre sócios (45%). Na saúde, a necessidade é aprimorar procedimentos e estrutura do conselho (61,1%). Nos serviços, concentra-se atenção em aspectos ligados à diretoria (50%). Cada setor parece reconhecer onde o calo aperta, o que é um sintoma positivo.
O pano de fundo, porém, é menos animador. Pela primeira vez nas três edições da pesquisa, a visão negativa sobre o ambiente de negócios supera a positiva. A percepção de cenário ruim ou muito ruim saltou de 27,4% em 2024 para 35,3% em 2026. Dentre empresas com receita de até R$ 20 milhões, o pessimismo chega a 43,2%. No setor financeiro, a 45,2%.
A carga tributária segue como principal ameaça, apontada por 45,8% dos respondentes, pelo segundo ano consecutivo. Na sequência, vêm insegurança jurídica (32,6%), tensões geopolíticas (27,4%), possível alta de juros (24,7%) e corrupção (22,6%). Em 2025, a inflação ocupava o topo das preocupações ao lado dos tributos. O foco mudou, mas a instabilidade permanece.
Ainda assim, há uma espécie de otimismo defensivo. Embora a perspectiva de desempenho das empresas tenha recuado 10,9 pontos percentuais em relação a 2025, ela permanece majoritariamente positiva (59%). Mais da metade dos respondentes (54,7%) acredita na capacidade de antecipar riscos e manter investimentos estratégicos. Os três principais focos para os próximos 12 a 18 meses continuam sendo expansão de mercado (49%), transformação digital (48,4%) e desenvolvimento de capital humano (45,3%), seguidos de aplicação de inteligência artificial (37,9%) e contratações específicas (19%).
O que emerge desse conjunto de dados, para análise e reflexão dos investidores, é um retrato sofisticado das empresas, seus diretores e conselheiros: pessimistas com o macroambiente, confiantes na própria capacidade interna e conscientes de que governança é instrumento de sobrevivência e geração de valor.
Danilo Gregório
é Gerente de Conhecimento e Relações Institucionais do IBGC.
comunicacao@ibgc.org.br