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A indústria brasileira voltou ao centro do debate econômico. A retomada da política industrial, faz dois anos, materializada na Nova Indústria Brasil (NIB), e o avanço da reforma tributária sobre o consumo sinalizam uma inflexão relevante em relação às últimas décadas, marcadas pela perda de densidade produtiva e pela desindustrialização precoce. Trata-se de um movimento correto e necessário. Contudo, ele será insuficiente se não vier acompanhado de um ambiente macroeconômico compatível com o investimento produtivo, a inovação e a elevação sustentada da produtividade.
A reforma tributária é, sem dúvida, um dos pilares dessa mudança. Ao caminhar para a neutralidade, reduzir a cumulatividade e mitigar distorções que penalizam cadeias produtivas longas e intensivas em capital, ela tende a melhorar a eficiência alocativa e a previsibilidade dos investimentos industriais. Em um país em que a indústria, segundo a Confederação Nacional da Indústria - CNI, responde por 35,2% da arrecadação de tributos federais, exceto receitas previdenciárias, enquanto representa 24,7% do PIB, essa correção é bem-vinda e pode contribuir para a retomada do crescimento do setor.
No entanto, tributos mais racionais não produzem competitividade automaticamente. O grande desafio da indústria brasileira segue sendo a produtividade. De acordo com Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman: ela não é tudo, mas no longo prazo é quase tudo. Para alcançá-la é essencial: investimento contínuo em modernização, digitalização, inovação tecnológica, reorganização das cadeias produtivas e qualificação da mão de obra. Nada disso ocorre de forma espontânea, tampouco em ambientes marcados por elevado custo de capital e incerteza macroeconômica persistente.
É nesse ponto que o debate precisa ganhar densidade. Ao longo das últimas décadas, consolidou-se no Brasil a ideia de que a política macroeconômica seria neutra em relação à estrutura produtiva. A experiência concreta mostra o contrário: juros importam! Taxas de juros reais elevadas por longos períodos encarecem o crédito, aumentam o custo de oportunidade do investimento produtivo e deslocam recursos para aplicações financeiras de curto prazo.
O resultado é conhecido: empresas industriais reduzem ao mínimo os investimentos em inovação, tornam-se mais dependentes de insumos e bens intermediários importados ou, em casos extremos, migram para modelos de negócio baseados em montagem e distribuição, como é o caso da “maquila paraguaia”: A Lei de Maquila do Paraguai (Lei nº 1.064/97) é um regime especial de incentivo à industrialização e exportação, permitindo que empresas importem insumos com suspensão de impostos, produzam e exportem com um tributo único de apenas 1% sobre o valor agregado. Oferece isenção de imposto de renda, custos trabalhistas competitivos e fácil acesso ao mercado brasileiro, atraindo diversas indústrias, especialmente brasileiras.
O país, por sua vez, reforça uma especialização regressiva: exporta commodities e importa bens industriais, abandonando os ganhos associados à maior complexidade produtiva.
A NIB, baseada em missões, procura enfrentar esse quadro ao recolocar a política industrial no centro da estratégia de desenvolvimento. Ao articular inovação, sustentabilidade, digitalização e inclusão social, a NIB dialoga com transformações estruturais em curso nas principais economias do mundo. Não se trata de um retorno a modelos do passado, mas de uma tentativa de reposicionar o Brasil em cadeias globais de maior valor agregado, sob novos paradigmas tecnológicos e ambientais. A expectativa é que essa política se sustente no longo prazo, para além dos ciclos políticos.
Nesse contexto, o alinhamento da NIB com a Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC) é particularmente relevante. A circularidade representa uma mudança estrutural no modelo produtivo, ao priorizar eficiência no uso de recursos, redução de desperdícios, reaproveitamento de insumos e novos modelos de negócio. Trata-se de uma agenda moderna, compatível com exigências ambientais, regulatórias e de mercado que já condicionam decisões de investimento globalmente.
A economia circular não se limita à pauta ambiental: trata-se de uma agenda de competitividade, que precisa ocupar posição central na análise econômica. Países e empresas que liderarem essa transição tendem a reduzir dependência de insumos importados, inovar em produtos e processos, além de capturar mercados em expansão. O Brasil, por suas vantagens ambientais e por seu parque industrial ainda diversificado, tem condições objetivas de ocupar esse espaço. A ENEC fornece o marco estratégico; a NIB, os instrumentos de política industrial. A direção é correta.
O risco reside na execução. Modernizar o parque industrial exige investimentos de longo prazo, com retornos graduais e maior tolerância ao risco tecnológico. Inovar pressupõe crédito acessível, previsibilidade regulatória e coordenação entre agentes públicos, como o BNDES, e privados. Circularidade demanda redes produtivas, governança e escala. Nada disso prospera em um ambiente macroeconômico hostil ao investimento produtivo, no qual o custo do capital inviabiliza projetos.
Persistir nesse modelo, constitui aceitar, de forma quase resignada, o papel de exportador de commodities e importador de bens industriais. Significa relegar uma base produtiva mais sofisticada, como a produção de aeronaves, capaz de gerar valor. A reforma tributária melhora o terreno institucional, mas é a produtividade (sustentada por investimento, tecnologia e financiamento adequado) que decidirá o futuro da indústria brasileira.
Para o mercado de capitais, esse movimento abre uma janela relevante de oportunidades. Diferentemente do passado, o financiamento da indústria não depende exclusivamente do crédito bancário tradicional. O mercado brasileiro tem se mostrado cada vez mais receptivo a instrumentos voltados ao financiamento produtivo com foco em critérios ESG, como debêntures incentivadas, green bonds, sustainability-linked bonds, fundos de infraestrutura e modelos híbridos capazes de assentar retorno financeiro com impacto ambiental e social mensurável.
A NIB, ao alinhar-se à ENEC, dialoga diretamente com essa nova lógica de financiamento. Projetos de modernização do setor industrial, eficiência energética, descarbonização, economia circular e inovação tecnológica encontram hoje um ecossistema financeiro maduro, disposto a precificar riscos e retornos de longo prazo de forma mais assertiva. Isso reduz a dependência de subsídios diretos e amplia o papel do investidor institucional na transformação produtiva.
Para os investidores, trata-se de uma oportunidade concreta de diversificação de portfólio com ativos reais, capazes de combinar retorno ajustado ao risco, previsibilidade regulatória e aderência às agendas globais de sustentabilidade. Para os empreendedores industriais, abre-se a possibilidade de financiar produtividade, inovação e competitividade em bases modernas. Quando indústria, mercado de capitais e política pública caminham de forma coordenada, o resultado é virtuoso: investidores e empresas são fortalecidos, e o país avança rumo a uma economia mais complexa, resiliente e sustentável.
Haroldo da Silva
é Presidente do Corecon-SP. Advogado, Consultor, Doutor em Ciências Políticas e Mestre em Desenvolvimento Econômico.
haroldoeconomista@gmail.com