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As Assembleias Gerais Ordinárias (AGOs) sempre ocuparam posição central na governança corporativa, funcionando como o principal fórum de diálogo entre companhias e acionistas. Tradicionalmente associadas à aprovação de contas e deliberações formais, essas reuniões passaram, nos últimos anos, a assumir um papel mais estratégico, tornando-se espaços onde se mede, na prática, a qualidade da governança, a direção estratégica das companhias e o grau de alinhamento entre empresas e investidores.
Protagonismo da área de Relações com Investidores
Nesse contexto, a área de Relações com Investidores (RI) ganhou protagonismo ao viabilizar a comunicação efetiva entre a companhia e seus acionistas. Ao assegurar transparência, preparar informações relevantes, coordenar processos e promover o engajamento dos investidores, o RI contribui diretamente para o fortalecimento da governança e para o alinhamento de interesses entre companhias e acionistas. Além disso, a adoção do voto à distância e o avanço das assembleias híbridas ou virtuais ampliaram a participação dos investidores, tornando as AGOs ainda mais relevantes como instrumentos de accountability e diálogo.
Observando a evolução das AGOs ao longo dos anos, percebe-se que cada vez mais companhias têm sido levadas a dedicar maior atenção aos seus processos. Investidores, tanto internacionais quanto locais, vêm exigindo melhor desempenho das companhias em termos de governança corporativa, divulgação de informações ESG e engajamento com acionistas. Também se nota o aumento da participação de investidores nas assembleias no Brasil, explicado principalmente pela facilitação da participação por meio do Boletim de Voto à Distância (BVD), criado em 2015 pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
AGOs e atuação dos Investidores Institucionais
Os profissionais de Relações com Investidores atuam como elo central entre a administração da companhia e seus acionistas, promovendo comunicação transparente e engajamento dos investidores. Coordenam todo o processo das assembleias, desde a elaboração da pauta e preparação de documentos até a condução de sessões de perguntas e respostas e o atendimento às demandas dos acionistas.
A área de RI também assegura que os acionistas estejam bem-informados sobre desempenho, estratégia e práticas de governança da companhia, permitindo que participem das decisões de forma fundamentada e que a participação nas assembleias ocorra de maneira organizada e eficiente. Além do papel exercido pelo RI, a dinâmica das AGOs envolve coordenação com as áreas jurídica e de compliance para atendimento às exigências regulatórias, gestão da logística do evento, definição do local e da estrutura tecnológica (considerando reuniões virtuais e/ou híbridas) e suporte ao conselho e à diretoria executiva durante o encontro.
AGOs e relacionamento com os acionistas
As AGOs desempenham papel central no fortalecimento da relação entre companhias e acionistas ao proporcionar um espaço de interação direta com a administração, permitindo a discussão de temas relevantes, o exercício do direito de voto e uma compreensão mais clara das prioridades estratégicas, das práticas de governança e do desempenho financeiro e operacional da empresa. Esse processo tende a ampliar a confiança dos investidores na companhia e em sua gestão.
Ao mesmo tempo, o engajamento ativo com os acionistas contribui para a construção de relações de confiança, a mitigação de potenciais conflitos e o fortalecimento da reputação corporativa, evidenciando o compromisso da empresa com transparência e diálogo aberto junto aos investidores.
As AGOs brasileiras têm evoluído de forma a se aproximarem das assembleias americanas, que possuem um grau de ativismo maior.
Perspectiva Regulatória
Sob o ponto de vista regulatório, as AGOs desempenham papel fundamental na preservação dos padrões de governança corporativa e no fortalecimento do mercado de capitais, ao promover maior interação entre acionistas e a alta administração da companhia. Ao permitir que acionistas votem em temas centrais, como eleição de conselheiros, remuneração de executivos e questões societárias relevantes, as assembleias viabilizam a participação ativa dos investidores nas decisões e reforçam a responsabilização da companhia por suas práticas e resultados.
Tendências e Desafios
A área de Relações com Investidores precisa acompanhar um conjunto crescente de tendências e desafios relacionados às AGOs, entre eles o avanço das assembleias virtuais, que ampliam a participação, mas trazem desafios ligados à cibersegurança, acessibilidade e engajamento dos acionistas. O aumento da participação dos investidores exige postura mais proativa das companhias para compreender e responder às suas preocupações, gerando desafios logísticos e estratégicos. Observa-se também maior ativismo de acionistas que detêm parcela das ações em circulação no mercado (free float), impulsionado pelo voto múltiplo, que possibilita a eleição de representantes independentes para os conselhos de administração.
Paralelamente, cresce o interesse dos acionistas por temas de sustentabilidade e governança, demandando maior transparência e consistência nas pautas ESG. O uso de tecnologia, incluindo inteligência artificial e análise de dados, tende a otimizar a preparação e condução das AGOs, embora imponha desafios relacionados à segurança e à conformidade regulatória. Soma-se a necessidade de acompanhar regulações e padrões de governança em constante evolução, especialmente em ambientes regulatórios complexos.
Ao mesmo tempo, aumentam as expectativas por comunicação clara e eficaz, exigindo abordagem estratégica capaz de sustentar confiança e credibilidade junto ao mercado. A diversidade de gênero, etnia e competências torna-se prioridade para muitos investidores, exigindo ajustes na composição e renovação dos conselhos. Por fim, oscilações econômicas e a volatilidade dos mercados influenciam o ambiente das assembleias e podem impactar expectativas e decisões de voto dos acionistas.
Assim, ao preparar as AGOs, é fundamental considerar tendências e desafios, adaptando estratégias e práticas para garantir a condução eficaz dessas reuniões. À medida que as companhias priorizam cada vez mais o engajamento de seus stakeholders e a transparência, as AGOs permanecem um fórum indispensável para o fortalecimento das relações com acionistas e para a geração sustentável de valor no longo prazo.
Em 2026, dezenas de companhias do IBrX100 passarão por ciclos de renovação de seus conselhos de administração. Mais do que um rito estatutário, esse movimento representa oportunidade decisiva para reavaliar a arquitetura de governança das empresas e adiciona uma dimensão estratégica à próxima temporada de assembleias.
Nesse ponto, surge uma mudança importante de perspectiva: a diversidade nos conselhos deixa de ser tratada como agenda reputacional ou compromisso simbólico e passa a ser compreendida como fator estrutural de gestão de risco e geração de valor.
Diversidade e Governança
Conselhos excessivamente homogêneos tendem a reproduzir visões similares, aumentando o risco de decisões pouco desafiadas e de leituras limitadas sobre mercado, consumidores e tendências regulatórias e sociais. Esse risco cognitivo torna-se especialmente sensível em ambientes de maior volatilidade e transformação, nos quais decisões estratégicas exigem pluralidade de experiências e perspectivas.
Ao mesmo tempo, investidores institucionais vêm incorporando critérios objetivos de governança e diversidade em suas políticas de voto e engajamento. Assim, a ausência de diversidade passa a ser percebida como risco reputacional e, em certos casos, de acesso a capital.
A renovação dos conselhos oferece, portanto, um ponto de inflexão. A ampliação da diversidade não ocorre de forma espontânea; exige planejamento sucessório estruturado, revisão das matrizes de competências e ampliação deliberada do pipeline de talentos disponíveis ao mercado.
Mas quais instrumentos concretos estão disponíveis para ampliar a diversidade nos Conselhos sem abrir mão de critérios técnicos, experiência setorial e maturidade de governança? Já existem iniciativas e cadastros dedicados ao mapeamento e à ampliação da visibilidade de profissionais qualificadas para atuação em Conselhos de Administração, contribuindo para fortalecer o pipeline disponível ao mercado.
Contribuição do 30% Club Brasil
Nesse cenário de companhias renovando seus conselhos nas AGOs, a contribuição do 30% Club Brasil está centrada em um plano de ações estruturado, com o objetivo de evoluir a proporção de conselheiras de 21% para 30% nas 100 maiores companhias do mercado de capitais brasileiro. Cartas assinadas por mim estão sendo endereçadas aos presidentes de conselho, aos investidores institucionais e aos analistas de mercado, em um esforço conjunto do 30% Club Brasil por meio de seus Comitês de Assessoramento ao Conselho.
Adicionalmente, em média, 100 conselheiras devem ser nomeadas nas AGOs deste ano, de forma a atingir 30% de participação feminina nos colegiados.
Mas onde buscá-las? Existem dois caminhos principais de pesquisa:
Com o objetivo de reconhecer as companhias que contemplam o equilíbrio de gênero em seus Conselhos de Administração, o 30% Club Brasil celebra anualmente, desde 2024, o 30% Club Award.
Iniciativas dessa natureza reforçam o processo sucessório e contribuem para que a renovação dos conselhos seja conduzida de forma estratégica, estruturada e alinhada às expectativas crescentes do mercado.
Conclusões
Tendo como base as considerações acima, investidores e companhias tornam-se coarquitetos de uma nova etapa de maturidade da governança. O stewardship ativo, o diálogo pré-assembleia e a clareza de critérios de voto contribuem para elevar o padrão das discussões e decisões.
As AGOs, portanto, deixam de ser apenas um momento de aprovação formal de pautas e passam a funcionar como espelho da evolução institucional das companhias. Empresas que aproveitarem o ciclo de renovação para fortalecer a diversidade e a qualificação de seus conselhos sinalizarão capacidade de adaptação e visão de longo prazo. Já aquelas que mantiverem estruturas excessivamente homogêneas poderão enfrentar questionamentos crescentes do mercado.
A diversidade, nesse contexto, deixa de ser meta aspiracional e passa a representar um indicador concreto de maturidade de governança. E as AGOs tornam-se o palco onde essa maturidade é observada, debatida e, cada vez mais, cobrada.
O desafio que se impõe às companhias não é apenas conduzir assembleias eficientes, mas utilizar esse momento como oportunidade de demonstrar coerência entre discurso, estratégia e estrutura de governança, condição essencial para a geração sustentável de valor no longo prazo.
Anna Guimarães
é presidente do Conselho do 30% Club Brasil desde 2019, Conselheira e ex-CEO. É CCA pelo IBGC, MSc pelo ITA e MBA pela USP, com formação executiva internacional. Atua em Conselhos e comitês estratégicos há mais de dez anos, liderando iniciativas de diversidade e governança.
Renata Oliva Battiferro
é executiva sênior com mais de 20 anos de experiência em Relações com Investidores, Governança Corporativa e Comunicação Estratégica. Atua como conselheira e co-head do Investors Group do 30% Club Brazil. Possui MBA em Finanças pelo Insper e formação pelo IBGC em Desenvolvimento de Conselheiros.
Isabella Salton
é conselheira e Head do Ambassadors Committee do 30% Club Brazil, com mais de 30 anos de experiência executiva em multinacionais como Reckitt Benckiser LATAM e Sadia/BRF, além de empreender por 25 anos à frente da Nexus Ideias e Negócios. Atuou também como Diretora Executiva do Instituto Terra.
30percentclubbrazil@30percentclubbrazil.org