É importante que analistas de valores mobiliários, gestores de recursos, profissionais de relações com investidores e demais participantes do mercado de capitais estejam atentos à discussão sobre a melhor forma de incorporar a governança corporativa aos modelos de valuation. Alguns defendem ajustes no custo de capital; outros preferem concentrar a análise nas projeções de fluxo de caixa ou nos fatores considerados nas avaliações. Embora relevante, esse debate parte de uma premissa incompleta: nem tudo o que importa precisa ser convertido em número.
Em muitos casos, a análise qualitativa da governança revela riscos, oportunidades e características da cultura empresarial que dificilmente seriam capturados por modelos matemáticos. A governança não deve ser vista apenas como uma variável de precificação, mas como uma lente para compreender o funcionamento da companhia. Essa perspectiva permite identificar riscos, antecipar problemas e diferenciar empresas aparentemente semelhantes sob a ótica financeira.
Uma organização pode apresentar excelentes indicadores e crescimento consistente, mas esconder fragilidades que somente uma análise criteriosa é capaz de revelar. Da mesma forma, empresas que ainda não alcançaram todo o seu potencial podem demonstrar uma estrutura decisória sólida, capaz de sustentar a criação de valor no longo prazo. Nesse contexto, a análise qualitativa da governança cumpre três funções relevantes.
A primeira é atuar como filtro inicial. Há situações em que o risco de governança é tão elevado que compromete qualquer esforço posterior de modelagem financeira. A segunda é permitir comparações mais qualificadas entre empresas do mesmo setor. A terceira é reconhecer que mecanismos formais, como os segmentos especiais de listagem, representam um ponto de partida, não um patamar máximo de governança.
Cumprir regras é fundamental, mas governança efetiva vai além do checklist regulatório. Ela se manifesta no comportamento das pessoas, na qualidade das decisões e na maneira como a organização responde aos desafios. Essa análise pode ser estruturada a partir dos cinco princípios recomendados pelo Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC: integridade, transparência, equidade, responsabilização e sustentabilidade.
Desafios do analista de investimentos
O desafio do analista está justamente em transformar esses princípios em perguntas relevantes e observações práticas durante a cobertura das companhias. Um dos primeiros aspectos a serem avaliados é o alinhamento de incentivos entre executivos e acionistas. A estrutura de remuneração da alta administração revela muito sobre as prioridades da empresa. É importante observar o equilíbrio entre remuneração fixa e variável, as métricas utilizadas na definição de incentivos de curto e longo prazo e as regras de retenção das ações recebidas pelos executivos.
Quando a remuneração privilegia exclusivamente o crescimento da receita, sem considerar rentabilidade ou retorno sobre o capital investido, cria-se um incentivo para decisões que favorecem resultados imediatos, mas podem comprometer a geração sustentável de valor.
Da mesma forma, bônus elevados em exercícios de prejuízo ou a venda imediata de ações após o período obrigatório de retenção constituem sinais de alerta. Outro ponto indispensável é a proteção dos direitos dos acionistas minoritários. A equidade deve se refletir no tratamento efetivamente dispensado aos investidores. Questões como a extensão do tag along às diferentes classes de ações, o segmento de listagem da companhia e a igualdade de tratamento em operações societárias tornam-se elementos relevantes dessa avaliação.
Estruturas que concentram excessivamente o poder do controlador, aumentos recorrentes de capital potencialmente dilutivos ou mecanismos que favoreçam determinados grupos em detrimento dos demais representam riscos que, muitas vezes, se materializam justamente nos momentos mais críticos da vida societária. As transações com partes relacionadas também merecem atenção. Nem toda operação dessa natureza é inadequada. Muitas são legítimas e economicamente justificáveis.
O problema surge quando contratos, empréstimos, aluguéis ou prestações de serviços entre a companhia aberta e empresas ligadas ao controlador deixam de observar condições compatíveis com as de mercado. Nessas circunstâncias, pode ocorrer transferência de valor da companhia para interesses particulares. Empréstimos concedidos em condições desfavoráveis ou a contratação de empresas pertencentes à família do controlador, sem justificativa operacional consistente, são exemplos de sinais de alerta que podem não aparecer imediatamente nos indicadores financeiros.
A transparência, por sua vez, talvez seja um dos fatores mais subestimados pelo mercado. Ser transparente não significa apenas divulgar informações, mas fazê-lo com clareza, consistência e previsibilidade. Empresas maduras comunicam boas e más notícias com o mesmo compromisso informacional. Mudanças frequentes nos indicadores divulgados, uso excessivo de métricas ajustadas para suavizar perdas recorrentes, alterações constantes nos critérios contábeis ou relatórios excessivamente vagos devem despertar a atenção do analista. Quanto maior a opacidade, maior tende a ser a assimetria informacional e, consequentemente, o risco de revisões abruptas das teses de investimento.
Também é essencial avaliar a efetividade do conselho de administração. A independência formal, isoladamente, não é suficiente. O mercado precisa identificar conselheiros capazes de exercer supervisão efetiva sobre a diretoria e o controlador. Diversidade de competências, dedicação dos membros e existência de comitês estatutários, especialmente de auditoria, contribuem para reduzir vieses decisórios e fortalecer a responsabilização.
Conselhos compostos majoritariamente por pessoas ligadas ao controlador ou por membros sem disponibilidade adequada para exercer suas funções dificilmente conseguem desempenhar plenamente seu papel estratégico. Há ainda uma dimensão pouco explorada: o papel do analista de valores mobiliários como agente indutor de boas práticas de governança. Muitas vezes, esses profissionais são percebidos apenas como usuários das informações divulgadas pelas companhias.
Essa visão é limitada. Quando determinados assuntos passam a integrar de forma recorrente a agenda de questionamentos do mercado, também passam a receber maior atenção dentro das organizações. Existe, inclusive, um teste simples para avaliar a maturidade da governança de uma companhia. Diante de questões complexas, conselhos de administração e equipes executivas que respondem com dados, clareza, transparência e domínio de seus processos transmitem confiança ao mercado.
Em contrapartida, administrações que reagem a perguntas técnicas com irritação, evasivas ou tratam o questionamento como inconveniência podem revelar fragilidades que não aparecem nos demonstrativos financeiros.
Em governança, a forma como uma empresa responde pode ser tão reveladora quanto a própria resposta.
NOTA: As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a posição institucional da APIMEC Brasil.
Luiz Martha
é diretor de Conhecimento e Impacto do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e autor convidado para essa coluna da APIMEC Brasil.
dallamartha@gmail.com