Decisões melhores não nascem do consenso imediato, mas da capacidade de enxergar o que a uniformidade ignora. É essa busca incessante por uma inteligência coletiva mais robusta, capaz de abraçar múltiplos pontos de vista e experiências, que nos move na jornada pela paridade de gênero nos conselhos de administração. Recentemente, tive a honra de atuar como mestre de cerimônias em um evento que considero um marco para a governança brasileira: o "Call to Action" do 30% Club Brazil.
Realizado no escritório do CGM Advogados, em São Paulo, este café da manhã reuniu 55 líderes - homens e mulheres - engajados em acelerar a presença feminina nos mais altos escalões corporativos. De fato, este encontro call to action demonstra que a diversidade de perspectivas não é apenas um ideal, mas um imperativo estratégico para a sofisticação e a resiliência de nossas organizações.
Os dados mais recentes, apresentados no evento e os detalhados no Relatório de Administração 2024 do 30% Club Brazil, nos mostram um cenário de progresso e, ao mesmo tempo, de desafios claros. Hoje, 21,8% dos assentos nos conselhos das 100 maiores empresas do IBrX 100 da B3 são ocupados por mulheres. É reconhecidamente um avanço, mas a meta de 30% até 2026 exige mais ação. Precisamos intensificar nossos passos e, acima de tudo, elevar o call to action.
Em contrapartida, me chamou a atenção de forma contundente, a larga distância de pontos percentuais das conselheiras que detêm expertise comprovada em ESG (Environmental, Social, and Governance), se comparada ao percentual registrado entre os homens. Este não é apenas um dado estatístico; é um indicador claro de que a diversidade de gênero não se limita a preencher cotas, mas sim a injetar competências críticas e uma visão mais holística onde o mercado mais precisa de respostas e liderança, agora.
A abertura do encontro, conduzida com maestria por André Gilberto, CEO do CGM Advogados, trouxe uma perspectiva pessoal que, em sua simplicidade, ilustra as barreiras muitas vezes invisíveis, mas sempre presentes, que as mulheres ainda enfrentam no ambiente corporativo. Seu relato sobre o feedback dado a uma advogada sênior, que sentia precisar "falar mais alto para ser ouvida" em um ambiente predominantemente masculino, tocou em um ponto sensível para muitos presentes. Como executiva sênior com mais de 30 anos no mercado de telecomunicações e conselheira, compreendo a profundidade e a sutileza dessas barreiras. Elas não apenas dificultam a ascensão feminina, mas também drenam a inovação e a criatividade das organizações. Quando uma mulher assume uma posição de liderança, ela altera a frequência da cultura organizacional, tornando-a mais aberta ao diálogo e direcionada a geração de valor, se tornando mais resiliente e inovadora. É um ciclo que, uma vez iniciado, tem o poder de transformar a organização.
Para atingirmos percentuais mais elevados nos conselhos de administração, é importante contar com o incentivo de mais mulheres em posição de liderança que possam ascender a cargos de alta direção.
Anna Guimarães, presidente do Conselho do 30% Club Brazil, contextualizou os 15 anos globais do movimento. No Brasil, saímos de 8% de mulheres nos conselhos em 2019 para os atuais 21%. "Não podemos desperdiçar 50% do talento global", afirmou Anna, reforçando que a meta de 30% em 2026 é ambiciosa, mas tangível. O 30% Club Brazil vem atuando com vigor na promoção da diversidade de gênero nos conselhos de administração. Com o objetivo de monitorar a equidade de gênero nos conselhos de administração das 100 maiores companhias de capital aberto do país, foi desenvolvido, desde 2019, em parceria com a PwC, o Boardwomen Index IBrX100, que apresentou crescimento relevante na representação feminina entre 2019 e 2025, conforme série histórica:

A criação do 30% Club Brazil Award, que terá sua 4ª edição em outubro na PwC, demonstra que estamos criando parâmetros de sucesso para as empresas que lideram essa transformação.
A provocação veio do Case da Noruega, apresentado pela cônsul-geral honorária da Noruega em São Paulo, Juliana G. Meyer Gottardi. Esse case nos faz refletir sobre os caminhos para a paridade: a lei de 2003, que impôs 40% por gênero nos conselhos de empresas abertas, levou o país a 44% de representação feminina. Juliana foi direta: "O topo define a cultura". Isso nos deixa uma pergunta incômoda: teremos a velocidade necessária para a urgência global? A experiência norueguesa mostra que, às vezes, o catalisador precisa ser estrutural e regulatório.
No painel mediado por Paula Chaccur, sócia do CGM Advogados e co-head do 30% Club Brazil, foi debatido a Jornada de paridade de gênero em Conselhos de Administração e trouxe painelistas renomados. Fábio Coelho, presidente da AMEC, destacou que o investidor estrangeiro lê a diversidade como maturidade de governança e enfatizou o papel das agências de proxy voting, que têm tido um papel fundamental no Brasil para puxar essa cultura. Essa confiança do investidor é um ativo inestimável que se constrói com pluralidade e referências. Fernando Foz, presidente do Conselho do IBRI, trouxe uma reflexão essencial para quem atua em conselhos: "Uma discussão interessante é aquela com opiniões divergentes. Se todos pensam igual, o que estamos fazendo ali?". Para o profissional de RI, a narrativa de valor ganha força quando a empresa integra a diversidade em todos os níveis, transformando-a em diferencial competitivo. Lucy Pamboukdjian, diretora executiva da ABRASCA, reforçou que a paridade é estratégica e notou uma mudança encorajadora: "Hoje a gente tem sala desse evento cheia, mulheres e homens, e isso já foi uma evolução que aconteceu, eu diria, nos últimos dois anos também.” A Vivo, representada por Marina Daineze, VP de Comunicação e Sustentabilidade, exemplificou essa visão com exemplo dos comitês de afinidade ativos desde 2018. Marina foi clara indicando que a cultura inclusiva atrai talentos e investidores. A diversidade, nesse contexto, não é um custo, mas um investimento estratégico com retorno tangível em inovação, resiliência e, fundamentalmente, na atração de capital consciente.
A base empírica veio com a apresentação de Luiz Martha, diretor de conhecimento e impacto do IBGC, e Tarsila Ferro, sócia da Delabandera Sociedade de Advogados, ambos membros do Comitê ESG do 30% Club Brazil. Eles detalharam a pesquisa sobre "ESG e Equilíbrio de Gênero nos Conselhos de Administração – Análise das companhias integrantes do índice IBrX 100" . O estudo revelou que, dos 1.196 membros em 97 empresas, apenas 261 são mulheres (21,8%). Mais preocupante ainda é o fato de que “11,8% das empresas do IBRx100 não demonstraram nenhuma competência, nem E, nem S, nem G”, um sinal de alerta que não pode ser ignorado. No entanto, a pesquisa trouxe um insight poderoso e encorajador: as mulheres nos conselhos não apenas trazem diversidade de gênero, mas também uma expertise estratégica diferenciada. Como mencionado, 51,3% delas possuem credenciais em ESG, contra 34,9% dos homens, com destaque as áreas de Diversidade, Equidade e Inclusão, Cybersecurity e Compliance. Com relação a inclusão feminina em conselhos, destacam-se os setores como TI (37,5%), Financeiro (31,6%) e Comunicações (30,6%). Setores como Materiais Básicos (15,7%) e Petróleo e Gás (16,2%) mantêm predominância masculina. Ou seja, a participação feminina ainda está distante da paridade, mas avança em setores de inovação e serviços financeiros. Isso demonstra, de forma irrefutável, que a presença feminina não é apenas numérica; ela agrega competências cruciais e uma visão mais ampla para os desafios contemporâneos das companhias abertas, especialmente em um cenário onde a governança e os fatores ESG são cada vez mais determinantes para a avaliação de valor e a reputação corporativa.
É premente reconhecer a liderança ativa de Cida Hess, Head do Comitê de Inovação e Tecnologia do 30% Club Brazil e assessora da Presidência da Prodesp, na sua dedicação incansável para o sucesso desse grandioso evento. Ela reforçou com maestria a importância de benchmarks globais e a sinergia com veículos de comunicação especializados, levando a público o quanto a Revista RI apoia essa pauta. "Essa parceria demonstra a importância na valorização das empresas que adotam a paridade", alertou Cida Hess. O apoio da RI, mídia especializada no mercado de capitais, e do publisher Ronnie Nogueira é fundamental para legitimar a mensagem da pauta da paridade. Ela está intrinsecamente ligada ao futuro do mercado de capitais.
A inspiradora Saika Arshad, 30% Club Global Campaign Lead, nos guiou pela trajetória e pela missão global da iniciativa. Ao longo de 15 anos, o 30% Club uniu líderes e investidores em mais de 20 mercados, provando, com evidências irrefutáveis, que a diversidade em conselhos e equipes executivas é muito mais que justiça social: é um imperativo estratégico. Ela fortalece a qualidade das decisões, aumenta a transparência e aprimora a capacidade das organizações de navegar pela complexidade econômica e política.
A meta de 30% de mulheres em cargos de liderança não é arbitrária; estudos mostram que essa proporção é a massa crítica para catalisar mudanças culturais profundas. Embora alguns capítulos ainda enfrentem desafios, o compromisso contínuo, a colaboração estratégica e a perseverança são inegociáveis. No Brasil, o trabalho incansável dos membros do 30% Club é fundamental para construir organizações mais inclusivas e, assim, pavimentar o caminho para uma sociedade mais equitativa.
O encerramento do evento com Márcia Kitz, vice-presidente do Conselho e head do Steering Committee do 30% Club Brazil, consolidou o tom de um verdadeiro "call to action", ressaltando que os avanços, embora inegavelmente significativos, ainda são insuficientes diante da magnitude do desafio.
Paula Candido, Governance Officer voluntária e membro do Comitê de Inovação e Tecnologia do 30% Club Brazil, encerrou a agenda com palavras que ressoaram profundamente em todos os presentes: “Eventos como esse não acontecem por acaso, eles são frutos de intenção, muito trabalho e propósito.” Paula encapsulou a essência do que foi o evento: um reconhecimento do valor intrínseco e da contribuição que as mulheres trazem para a mesa de decisão. É a compreensão de que a diversidade não é um favor, mas uma necessidade estratégica para a competitividade e a inovação.
Além da minha coordenação na obra literária Mulheres em Telecom que tem como objetivo promover histórias reais de mulheres no setor de telecomunicações para que sejam referência em um mercado pujante e promissor, a minha dedicação voluntaria reforça um movimento que energiza quem não se contenta com o status quo e busca ativamente a transformação, através da mobilização de aliados estratégicos em direção a métricas claras e resultados tangíveis. O voluntariado que me impulsiona a estar como co-head do Comitê de Inovação e Tecnologia do 30% Club Brasil reflete o diferencial do engajamento genuíno e uma visão de longo prazo que transcende interesses imediatos, focando na construção de um futuro mais equitativo e próspero para o mercado como um todo. Isso é propósito! É a governança cognitiva, que nos impulsiona a decidir o futuro com ação intencional no presente.
O evento do 30% Club Brazil foi uma demonstração clara e inequívoca de que a paridade de gênero nos conselhos é, hoje, um pilar inegociável da governança moderna. É um tema que impacta diretamente a atratividade para investidores, a resiliência em momentos de crise e a capacidade de inovação contínua. Inegavelmente, as empresas que abraçarem essa agenda de forma proativa e genuína cumprirão um papel social fundamental e se posicionarão na vanguarda do mercado, construindo valor sustentável e futuros mais promissores para stakeholders e sociedade.
Luciana Tannure
Especialista em estratégia de expansão de negócios e inovação. Mentora empresarial e de carreira, Conselheira consultiva certificada, Co-head do Innovation and Technology Committee 30% Club Brazil e membro da Comissão de Governança, Empresas Familiares e PME da Board Academy. Executiva Sênior com mais de 30 anos de experiência em empresas nacionais e multinacionais e atual Head de Relacionamento na Eletronet para o setor elétrico. Engenheira pela PUC-RJ com MBA em Gestão Empresarial pela FGV e pós-graduação em Finanças Corporativas e TI.
luciana.tannure@gmail.com