Este artigo de posicionamento reflete a visão do 30% Club Brasil sobre os recentes movimentos de recuperação judicial no Brasil que escancararam uma realidade que o mercado de capitais já não pode ignorar: a governança corporativa deixou de ser atributo formal e tornou-se fator determinante de sobrevivência. Em cenários de estresse, quando liquidez e reputação estão em jogo, a qualidade das decisões passa a ser o verdadeiro diferencial competitivo.
Este artigo reflete uma convicção clara: diversidade com equilíbrio de gênero não é agenda acessória, mas elemento estruturante da governança corporativa contemporânea.
É nesse contexto que defendemos que Conselhos de Administração e Fiscal de composição diversa e que contemplam o equilíbrio de gênero, se revela não como pauta de equidade, mas como ativo estratégico. A experiência prática demonstra que conselhos diversos ampliam perspectivas, qualificam o debate e fortalecem a capacidade de lidar com contextos complexos. Em crises, investidores não precificam apenas balanços, mas também a habilidade dos conselhos de administrar a incerteza.
Casos recentes de companhias listadas na B3 que fazem parte do índice IBrX100 (maiores companhias do mercado de capitais brasileiro) evidenciam que a pluralidade de visões é decisiva para evitar decisões homogêneas e pouco resilientes. Anna Guimarães ao presidir o Conselho Fiscal de uma companhia listada na B3, que passou pelo processo de recuperação judicial, regime superado em 2 anos, destaca que o desafio não era apenas reequilibrar os números, mas reconstruir a confiança no mercado e criar um cenário para retomada do crescimento. A atuação em Conselhos Fiscais de companhias em recuperação judicial reforça que o desafio não é apenas reequilibrar números, mas reconstruir confiança e criar condições para a retomada sustentável do crescimento. A recuperação judicial é, antes de tudo, um teste de governança.
Os dados são contundentes: cerca de 24% das companhias listadas não geram caixa suficiente sequer para pagar os juros da dívida e, em muitos casos, até 60% da geração de caixa é consumida por encargos financeiros.
O Conselho de Administração,no governo da companhia juntamente com o Conselho Fiscal têm o dever fiduciário de atuarem juntamente com a Diretoria Executiva para que a companhia saia do processo de Recuperação Judicial em 2 anos e volte a crescer, respeitando os princípios de ESG, gerar lucros e distribuir dividendos aos seus acionistas num ambiente sustentável no longo prazo.
Número de organizações em Recuperação Judicial no Brasil

Fonte: RGF Consultoria e Receita Federal
Pesquisas internacionais corroboram essa visão. O Peterson Institute for International Economics demonstrou a partir da análise de 22.00 empresas em 91 países, que organizações com maior presença feminina, em cargos de liderança, tendem a apresentar até 15% maior lucratividade. Não se trata de retórica, mas de evidência empírica.
Renata Battiferro, acrescenta que a crescente complexidade do ambiente de negócios demanda cada vez mais Conselhos de Administração cada vez mais preparados para lidar com decisões sob pressão, conflitos em cenários de incerteza.
Defendemos portanto, de forma inequívoca, que a diversidade com equilíbrio de gênero, deve ser incorporada como critério explícito na composição dos conselhos de administração, nas indicações de acionistas e nas análises de investidores institucionais, nas AGOs de 2026. Mais do que preencher metas, trata-se de alcançar a “massa crítica” (Torchia, M.: Huse, M 2011- From Tokerism to Critical Mass) de representatividade mínima de 30% é capaz de influenciar efetivamente o processo decisório.
Conselhos homogêneos tendem a ser mais vulneráveis a vieses e menos preparados para enfrentar pressões externas. Já conselhos diversos com equilíbrio de gênero, demonstram maior resiliência, melhor qualidade de análise de risco e maior capacidade de engajar stakeholders.
Em um mercado cada vez mais complexo, a diversidade deixa de ser diferencial e passa a ser condição necessária para a governança eficaz.
É imperativo que o compromisso com essa agenda deva ser coletivo. Conselhos, presidentes, acionistas, investidores e órgãos de fiscalização devem reconhecer que pluralidade é sinônimo de solidez.
Na ausência de previsibilidade financeira, investidores recorrem à governança como âncora de confiança - e é justamente nesse ponto que a diversidade com equilíbrio de gênero se torna o fator que separa companhias capazes de atravessar crises daquelas que sucumbem a elas.
Sobre o 30% Club Brazil
O 30% Club Brazil representa a atuação brasileira de um movimento global, sem fins lucrativos, de liderança empresarial, presente nos principais países do G20. No Brasil, a iniciativa atua para alcançar pelo menos 30% de mulheres nos Conselhos das companhias do IBrX 100 até 2026 e 50% até 2030.
Anna Guimarães
é Fundadora e Presidente do Conselho Consultivo do 30% Club Brasil além de atuar como Conselheira de Administração em companhias. CEO por 9 anos, MSc Eng. ITA, MBA-USP e CCA pelo IBGC.
Renata Oliva Battiferro
atua como Conselheira e Co-head do Investors Group do 30% Club Brasil. É executiva sênior com mais de 20 anos de experiência em Relações com Investidores, Governança Corporativa e Comunicação Estratégica.
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