Educação Financeira

ENTRE A NOSTALGIA & A ESPERANÇA DO FUTURO

Quando eu era menino, assistia numa velha televisão em preto e branco a dois desenhos animados que olhavam para o tempo em direções opostas. Em Os Flintstones, Fred dirigia um carro de pedra impulsionado pelos próprios pés. Em Os Jetsons, George cruzava o céu num carro voador, cercado por robôs que prometiam facilitar a vida. Para aquela criança, não havia muita dúvida sobre qual dos dois mundos parecia mais atraente. Eu queria chegar ao futuro dos Jetsons, não voltar ao passado dos Flintstones.

Há poucos dias, assisti nas redes sociais a um vídeo da jornalista Becky S. Korich em que ela não apenas lê o próprio artigo, publicado em 27 de abril na Folha de S.Paulo: ela o interpreta, dando ritmo e personalidade ao texto. Intitulado "Saudades das placas de carro com três letras e quatro números", o artigo fala de um tempo em que os carros tinham mais cores e personalidade, reconhecíamos um modelo de longe pelo formato ou pelo barulho do motor, o Waze era um mapa de papel guardado no porta-luvas e o Spotify, uma fita cassete gravada em casa.

Para quem, como eu, viveu aquela época, é difícil não sorrir e, por alguns instantes, pensar: o passado era mesmo melhor.

Só que, como estudioso do comportamento, não demorei a perceber que estava caindo numa velha armadilha da nossa mente: o viés de nostalgia, alimentado pelo que os psicólogos chamam de retrospecção cor-de-rosa. Temos a tendência de olhar para trás com lentes mais benevolentes, atenuando as lembranças ruins e tornando mais vívidas as boas.

Achar que os carros daquela época eram melhores chega às raias da loucura. Becky fala de um Opala verde e de um Fusca amarelo, e imediatamente me lembrei do meu primeiro carro, um Opala amarelo, de estabilidade tão ruim que certa vez saí rodando numa curva; por sorte, nada mais grave aconteceu. Meu pai não teve a mesma sorte: morreu num acidente banal, num Fusca, no qual um simples cinto de segurança provavelmente teria salvado sua vida.

E como sentir saudades das fitas cassetes que enrolavam, dos mapas e caderninhos de endereços anteriores ao Waze, das horas perdidas procurando uma rua ou das paradas para pedir informações, e receber respostas que quase nunca tinham relação com a realidade?

Pensando bem, havia uma coisa realmente melhor naqueles carros sem multimídia e sem GPS: o jovem motorista ao volante, dentro de um corpo que ainda não começava a doer depois de algumas horas sentado.

Essa tensão entre olhar para trás e para a frente aparece numa pesquisa de 2025 do Pew Research Center, feita com 9.916 adultos americanos: perguntados em que época gostariam de viver, quase metade, 45%, escolheu o passado; 40% ficariam no presente e apenas 14% prefeririam o futuro.

Para cada pessoa que escolheria avançar no tempo, mais de três prefeririam voltar.

O resultado fica ainda mais intrigante quando olhamos a idade dos entrevistados: entre os americanos de 18 a 49 anos, 48% escolheriam viver no passado e apenas 17% no futuro, sinal de que essa atração não é privilégio de quem busca reencontrar a própria juventude, mas aparece com força justamente entre quem ainda tem a maior parte da vida pela frente. Aí existe algo além da nostalgia: a nostalgia muda de natureza e passa a funcionar como termômetro de ansiedade quanto ao que está por vir.

Quem é jovem hoje cresceu ouvindo falar de mudanças climáticas, crises econômicas, guerras, polarização política e de uma inteligência artificial capaz de transformar profissões e eliminar empregos. Ao mesmo tempo, objetivos tradicionais da vida adulta parecem mais difíceis de alcançar. Em outra pesquisa do Pew, 82% dos americanos disseram que poupar para o futuro está mais difícil para os jovens de hoje do que foi para a geração de seus pais; 87% disseram o mesmo sobre comprar uma casa.

Isto pode explicar a diferença tão grande entre o futuro imaginado na minha infância e aquele que muitos jovens imaginam hoje.

Para o menino que assistia aos Jetsons, o futuro aparecia como promessa. As máquinas trabalhariam por nós, os carros voariam e a ciência tornaria a vida progressivamente mais fácil. Hoje carregamos no bolso tecnologias que provavelmente surpreenderiam até os criadores dos Jetsons, mas o futuro parece ameaçador para muitos jovens.

E o outro extremo da pesquisa também merece atenção: entre os americanos com 65 anos ou mais, 48% escolheriam continuar no presente. À primeira vista, isso contradiz o próprio viés que abre este texto: se a memória edita o passado a nosso favor, por que quem mais viveu não é o grupo mais saudosista? Provavelmente porque a experiência concreta funciona como contrapeso a essa edição: quem viveu sem antibiótico eficaz, sem cinto de segurança ou sem informação confiável na estrada carrega, ao lado das boas lembranças, uma noção precisa do que essas décadas custavam. Posso sentir carinho por um carro antigo e lembrar das aventuras que vivi com ele, sem esquecer sua precariedade, ou recordar com simpatia os mapas de papel sem qualquer vontade de voltar a procurar um endereço com um guia de ruas aberto no colo.

Há uma diferença importante entre sentir saudade de uma época e desejar voltar a viver nela: podemos sentir falta da juventude e da sensação de ter décadas pela frente sem querer abrir mão dos avanços da medicina, da segurança, do conforto e da tecnologia.

Nossa memória não funciona como uma câmera que registra os acontecimentos exatamente como ocorreram e os arquiva intactos; ela reconstrói, seleciona e reorganiza, e é uma ótima editora. Com o passar dos anos, desconfortos perdem intensidade e experiências agradáveis permanecem mais acessíveis: as férias da infância, os amigos, as músicas, os primeiros amores e até aquele velho carro acabam ocupando um espaço muito maior do que as dificuldades que os acompanhavam. A comparação entre passado e presente, portanto, é desigual desde o início.

Mas, como o menino que sonhava com os carros voadores dos Jetsons, se eu tivesse respondido à pesquisa do Pew, estaria entre os 14% que prefeririam o futuro: ainda sonho com carros que voem e se dirijam sozinhos, olho para ele com otimismo e confesso certa irritação com o saudosismo.

O passado não precisa ter sido melhor para ser lembrado com carinho. Mas talvez devamos nos preocupar quando o futuro deixa de ser o lugar para onde queremos ir.

E você? Se pudesse escolher, preferiria viver alguns anos à frente, voltar ao passado ou permanecer exatamente onde está?


Jurandir Sell Macedo, CFP
é doutor em Finanças Comportamentais, com pós-doutorado em Psicologia Cognitiva pela Université Libre de Bruxelles (ULB) e diretor da Alento Educação Financeira.
jurasell@gmail.com


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