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Resistências à divulgação de Sustentabilidade vão contra convergência global de transparência e responsabilização de administradores.
A agenda climática entrou nas empresas pela via dos relatórios. Durante anos, o esforço principal foi medir emissões, divulgar metas e responder às crescentes demandas por transparência. Mas com o reforço da regulação, essa agenda começou a bater em outra porta: a da sala de conselho. Iniciativas como a Chapter Zero Alliance – novo nome da ex-Climate Governance Initiative — têm defendido que o clima precisa deixar de ser apenas tema de divulgação para se tornar parte das decisões estratégicas das empresas. No Brasil, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), que integra essa rede global pelo Chapter Zero Brazil, vem ajudando a trazer essa discussão para as companhias brasileiras.
A Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD) e, mais recentemente, os padrões de divulgação financeira de sustentabilidade do International Sustainability Standards Board (ISSB) ajudaram a consolidar a importância da transparência nos últimos anos. O resultado foi um avanço importante na qualidade das informações disponíveis para investidores, reguladores e as partes interessadas como um todo. Mas transparência, por si só, não resolve o problema central: reportar riscos climáticos não é o mesmo que mitigá-los, nem incorporá-los às decisões estratégicas.
Uma empresa pode ser eficiente em medir quantas toneladas de carbono emite na atmosfera e estimar quanto vai emitir no ano seguinte. Pode ter um time capaz de calcular o prejuízo financeiro de um evento climático extremo como furacões ou secas. O investidor que tomar a decisão de aportar recursos nessa companhia pode estar informado acerca de quanto dinheiro ele pode perder se ocorrer uma inundação. Mas podemos ir além disso.
É nesse ponto que a governança entra em cena. Se a divulgação organiza informações, a governança organiza decisões. Cabe ao conselho de administração provocar a diretoria acerca de como esses riscos, assim como oportunidades, traduzem-se em estratégia e planejamento de longo prazo.
Uma companhia que integra a questão climática ao seu negócio pensa em investir em novas tecnologias, revisar portfólios de ativos, adaptar cadeias de suprimento ou repensar modelos de distribuição e comercialização. Por isso, o bom conselheiro também é propositivo.
A questão climática deve estar presente também na avaliação de fusões e aquisições. Em vez de apenas analisar a papelada para confirmar que a empresa-alvo não emite carbono demais, a compradora tem de passar a buscar ativamente alvos que mitiguem os efeitos do clima ou tenham impacto positivo.
O esforço inicial de convencer conselhos de administração de que o tema climático era relevante deu lugar a um desafio mais complexo: apoiar conselhos na implementação efetiva de práticas de governança capazes de orientar decisões estratégicas em um ambiente econômico atravessado pela transição climática.
O novo nome também reflete a ampliação do escopo do debate. Além do clima, cresce a percepção de que riscos ligados à natureza, como perda de biodiversidade, escassez de água e degradação de ecossistemas, podem ter impactos diretos sobre cadeias produtivas, colaboradores, consumidores. Simultaneamente, a decisão de buscar soluções baseadas na natureza que adotem práticas sustentáveis deixa de ser um bom discurso de marketing e se torna um caminho para a resiliência do negócio.
Esse movimento também reflete uma mudança na expectativa de investidores e outros stakeholders. Gestores de recursos, fundos de pensão e seguradoras vêm ampliando suas análises sobre riscos climáticos e ambientais, pressionando empresas a de adaptar.
Ainda assim, não faltam exemplos de negação da realidade ambiental e climática que se apresenta. A Resolução CVM 244, publicada em maio, retirou a obrigatoriedade de adoção dos padrões do CBPS e do ISSB e passou a permitir o reporte voluntário, no modelo “pratique ou explique”, ampliando a insegurança sobre o avanço dessa agenda no Brasil.
Mesmo sem obrigatoriedades, companhias e administradores podem continuar adotando as melhores práticas de governança. No início de 2026, o Fórum Econômico Mundial revisou seus princípios de governança climática, incorporando de forma mais explícita questões relacionadas à natureza. A versão em português foi publicada pelo Chapter Zero Brazil, que lançou, em junho, uma coleção de artigos para orientar a aplicação de cada uma dessas diretrizes.
Danilo Gregório
é Gerente de Conhecimento e Relações Institucionais do IBGC.
comunicacao@ibgc.org.br