Ponto de Vista

QUANTO VALE O RISCO SOCIOAMBIENTAL E CLIMÁTICO?

Por anos, a sustentabilidade se resumia à parágrafos superficiais nas comunicações financeiras corporativas e uma agenda pontual nas reuniões de diretoria. Limitada à relatórios paralelos pouco, ou nada integrados às discussões de negócio, assistia de longe às decisões estratégicas sem conseguir ocupar seu lugar à mesa. Porém, a inclusão dos padrões globais IFRS S1 e S2 no arcabouço regulatório brasileiro permite que a sustentabilidade comece a pleitear uma cadeira cativa nas salas da alta liderança.

A norma exige que as empresas divulguem riscos e oportunidades socioambientais e climáticos com a mesma consistência, comparabilidade e auditabilidade aplicados às demonstrações contábeis tradicionais, permitindo ao mercado enxergar, com precisão econômica, como esses elementos afetam fluxos de caixa, custo de capital e valor futuro das empresas.

À medida que eventos climáticos, pressões regulatórias e expectativas de stakeholders se intensificam, torna‑se evidente que temas socioambientais e climáticos passam a ser determinantes para o desempenho financeiro de longo prazo das empresas. Contudo, parece haver um descompasso entre a maturidade das empresas e a capacidade de atender ao ponto central da norma: antes de divulgar os riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade e mudanças climáticas financeiramente relevantes, é preciso identificá-los, avaliá-los, entender o seu comportamento frente ao negócio, mapear estratégias de mitigação e controle para então estimar o seu impacto financeiro e incorporá-los aos indicadores financeiros da organização.

O estudo “A Maturidade ESG nas Empresas Brasileiras”, indica que 64% das empresas reconhecem a sustentabilidade como ponto estratégico, mas apenas 8% o consideram um pilar central do modelo de negócios. A nota Técnica da CVM, corrobora essa lacuna. Divulgada em 2025 com base em respostas de 291 companhias abertas, investidores, auditores e consultorias, aponta que entre os desafios de alta relevância percebidos pelo mercado para adequação à nova regulamentação está a limitação da capacidade em coletar, avaliar, medir e monitorar dados socioambientais e climáticos, ressaltando a mensuração de fatores quantitativos/financeiros. No estudo, as empresas revelam dificuldades em criar sistemas internos capazes de consolidar informações dispersas, lidar com bases heterogêneas e garantir consistência entre diferentes áreas, o que compromete diretamente a qualidade e a comparabilidade das informações exigidas.

Parte desse desafio decorre da própria natureza dos riscos climáticos por serem incertos, não lineares, de longo prazo e abranger a cadeia de valor, o que contrasta com os modelos tradicionais de avaliação, fundamentados em séries históricas estáveis. Segundo a publicação “A mensuração dos riscos climáticos e ambientais no setor financeiro”, as mudanças climáticas exigem modelagens inovadoras, capazes de incorporar cenários futuros, novas variáveis e interações complexas entre ciência climática e dinâmica econômica, competências que ainda estão em desenvolvimento em todos os setores, inclusive no financeiro.

Enquanto o mercado está buscando se adequar às exigências regulatórias e pressões de stakeholders, o fato é que os riscos socioambientais e climáticos deixaram de ser projeções e passaram a produzir efeitos negativos tangíveis sobre resultados financeiros. Um exemplo é o apresentado no estudo “Aligning climate, nature and markets” que estima que a crise global de polinização já reduziu em 3% a 5% a produção anual de frutas, vegetais e nozes, enquanto projeções internacionais indicam que entre 5% e 25% do EBITDA global pode estar em risco até 2050 devido aos impactos físicos das mudanças climáticas.

Adicionalmente, o relatório “Uncovering Financial Implications of Deforestation” evidencia a lacuna na capacidade das empresas em incorporar os dados de sustentabilidade e clima nos indicadores financeiros. Produzido em novembro de 2025 pelo CDP, o levantamento exemplifica esse efeito no âmbito do desmatamento: Ao analisar as divulgações florestais corporativas, verificou-se que menos da metade dos riscos substanciais identificados tem seus impactos financeiros quantificados. A estimativa do CDP é de US$ 279 bilhões em impactos financeiros potenciais proveniente dos riscos relacionados à florestas, abordando apenas aqueles riscos identificados e relatados pelas empresas declarantes, o que significa que a exposição total por toda a economia global é substancialmente maior.

A implementação das normas IFRS S1 e S2 abriu a cortina sobre o ponto cego das demonstrações financeiras: a desconexão histórica entre sustentabilidade e impacto econômico. Nesse contexto, a incapacidade de responder à pergunta “Quanto vale o risco socioambiental e climático?” não é apenas uma falha técnica, mas uma ameaça à estabilidade do próprio mercado, ao induzir decisões baseadas em projeções distorcidas, sub ou superavaliação de ativos ou passivos e exposição crescente a riscos sistêmicos.

Se, apenas no ano de 2024, a estimativa do Fórum Econômico Mundial, é de que os fatores climáticos causaram $368 bilhões de dólares em perdas, qual o real impacto dessas questões no resultado de sua empresa?


Felipe Nestrovsky
é sócio de Corporate Sustainability & Climate Change na ERM.
felipe.nestrovsky@erm.com

Laura Colenci
é consultora sênior na ERM.
laura.colenci@erm.com


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