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O encontro global do 30% Club, realizado em Dublin (Irlanda) no final de fevereiro de 2026, representou um momento de inflexão estratégica para a governança corporativa. No local onde o movimento iniciou sua expansão internacional, representantes de diversos capítulos se reuniram para alinhar prioridades e reforçar um compromisso comum: a transformação dos Conselhos de Administração em estruturas mais diversas, independentes e eficazes.
Esse amadurecimento da agenda de gênero tem avançado em todos os setores da economia, impulsionado tanto por iniciativas estruturadas quanto pela pressão crescente de investidores institucionais por melhores práticas de ESG.
O evento reuniu nove delegações lideradas por seus respectivos Chairs, refletindo a capilaridade da iniciativa. Países como Reino Unido, França, Alemanha e Polônia estiveram fortemente representados, ao lado de delegações relevantes das Américas, incluindo Estados Unidos, Colômbia e Brasil. A comitiva brasileira, representada por Paula Chaccur e Leticia Campos Mello, do Comitê ESG, participou de uma programação que uniu networking de alto nível a discussões estratégicas profundas, como o "30% Club - The Chairs and CEOs Annual Meeting". Na ocasião, o Primeiro-Ministro irlandês, Micheál Martin, e a ex-presidente Mary McAleese destacaram como o equilíbrio de gênero nas companhias reverbera em ganhos para a academia, os esportes e a sociedade como um todo.
A liderança como motor da mudança
As discussões mais impactantes concentraram-se na responsabilidade direta da liderança na aceleração da diversidade. Ficou evidente que o tema deixou de ser periférico para integrar o núcleo das decisões estratégicas: hoje, a presença feminina nos boards é percebida como um vetor concreto de geração de valor, inovação e mitigação de riscos. Um dos pontos centrais foi a discussão sobre a sucessão de cadeiras.
A falta de processos estruturados de renovação em conselhos, historicamente marcada por redes restritas, surge como uma das principais alavancas para ampliar a inclusão. A transição para modelos transparentes e baseados em competências é fundamental para sustentar o impacto do movimento a longo prazo.
Nesse contexto global, a participação do Brasil foi estratégica. O país não apenas contribuiu com perspectivas de um mercado emergente, mas apresentou soluções que vêm ganhando reconhecimento internacional, como o "30% Club Award". A iniciativa brasileira, que reconhece companhias que avançam de forma consistente na agenda de diversidade, tem se mostrado uma ferramenta eficaz de engajamento e benchmarking. Atualmente, o Brasil possui 21% de representatividade feminina nos conselhos das companhias do IBrX 100, e o debate em Dublin reforçou que o país assumiu um papel protagonista na construção de soluções adaptadas a mercados com alta concentração acionária.
O espírito de colaboração do encontro foi sintetizado por depoimentos que reforçam a urgência da agenda. Paula Chaccur, membro do Comitê ESG do 30% Club Brasil, destacou a importância do evento: "O alinhamento estratégico entre os capítulos em Dublin multiplicará o impacto do movimento. Saí especialmente orgulhosa do trabalho que o Capítulo Brasil tem desenvolvido, reconhecido pela consistência das iniciativas e pela contribuição ao debate global". Já Leticia Campos Mello, do Comitê ESG, afirmou que “as trocas entre os Chapters foram riquíssimas, e foi especialmente positivo ver o apoio de tantos CEOs globais, inclusive homens, a essa agenda de eficiência através da paridade”.
Olhando para o futuro, o Capítulo Brasil encerra um ciclo de avanços relevantes, mas ciente de que os desafios permanecem. O acesso aos tomadores de decisão e a resistência estrutural à rotatividade nos conselhos exigem uma atuação coordenada. O ano de 2026 já reserva marcos decisivos, como o evento de 26 de março para investidores e a entrega do 30% Club Award em outubro. Mais do que metas numéricas, o movimento representa uma mudança estrutural na forma como os conselhos operam. O encontro em Dublin deixou uma mensagem clara: o avanço é real, mas a jornada continua, e o Brasil é peça fundamental nessa trajetória global.
Anna Guimarães
é Presidente do Conselho Consultivo do 30% Club Brasil desde 2019, Conselheira e ex-CEO. É CCA pelo IBGC, MSc pelo ITA e possui MBA pela USP.
30percentclubbrazil@30percentclubbrazil.org