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Há dez anos, quando o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) lançou o Programa Diversidade em Conselho (PDeC), a discussão sobre o tema ainda caminhava a passos lentos no Brasil. Havia boas intenções e diagnósticos consistentes, mas poucas ações estruturadas para transformar discurso em prática. Uma década depois, a iniciativa do IBGC chega à sua décima turma, com nova edição prevista para abril, e se consolida como um movimento relevante para ampliar a presença feminina nos órgãos de governança e posições de liderança nas empresas.
O PDeC nasceu com o propósito claro de fortalecer a diversidade de gênero em conselhos de administração, consultivos, deliberativos ou fiscais e comitês de assessoramento. Desde a primeira edição, 275 mulheres já passaram pelo programa, que se estrutura em três pilares: formação, mentoria e networking. Em 2025, quando completou uma década, deu mais um passo relevante, com as participantes e mentores(as) passando a integrar, pela primeira vez, um curso internacional, o Global Board Program, na Yale School of Management.
Em linha com as mais contemporâneas tendências, o PDeC também ampliou seu escopo e passou a incorporar, além da dimensão de gênero, uma frente voltada à promoção da diversidade étnico-racial. Entendemos que conselhos diversos tendem a estar mais bem preparados para lidar com ambientes complexos, riscos emergentes e expectativas crescentes da sociedade.
Em 2025, essa ampliação foi formalizada com a estruturação do programa em duas frentes estratégicas: o PDeC Elas, voltado ao aumento da presença feminina em conselhos de administração, e o PDeC Raízes, dedicado à promoção da diversidade étnico-racial nesses espaços de governança.
Todas essas iniciativas, assim como de outras entidades e organizações, têm apresentado resultados, mesmo que os avanços sejam lentos. Segundo o mais recente relatório do IBGC sobre diversidade de gênero e raça entre administradores e empregados de companhias abertas, conselheiras ocupam, em média, 21,1% das cadeiras dos conselhos de administração.
Quando se observa o conjunto das posições de liderança, o quadro também revela evolução modesta. A participação feminina em conselhos e diretorias das empresas abertas passou de 12,8%, em 2021, para 16,1%, em 2025. Ou seja, apesar de a maioria das companhias já contar com ao menos uma mulher em sua administração (83,1% delas têm presença feminina em conselhos ou diretorias), o avanço estrutural ainda é gradual no Brasil.
É nesse contexto que iniciativas como o PDeC Elas ganham importância estratégica, pois ajudam a reduzir um dos argumentos mais recorrentes contra a diversidade em conselhos: a suposta falta de profissionais preparadas. Programas estruturados para formação e mentoria ampliam o pipeline de conselheiras qualificadas, conectando talento, experiência e oportunidades.
A agenda da diversidade também passou a contar com um importante impulso institucional. Em junho de 2025, foi sancionada lei (PL 1.246/2021) que estabelece reserva obrigatória de 30% das vagas nos conselhos de administração de empresas estatais para mulheres. A implementação será gradual, sendo 10% no primeiro ano, 20% no segundo e 30% no terceiro. A medida inclui a destinação de 30% das vagas da cota a mulheres negras ou com deficiência.
A lei segue uma tendência internacional de aplicação de políticas públicas para acelerar transformações que, apenas pela dinâmica de mercado, tendem a ocorrer de maneira muito mais lenta. Objetivo não é substituir o mérito, mas corrigir distorções históricas que limitaram o acesso feminino aos espaços de decisão.
Afinal, diversidade não é apenas uma questão de representatividade. Trata-se de qualidade de governança. Conselhos compostos por perfis distintos, em termos de gênero, experiência, formação e origem, ampliam o repertório de análise, reduzem o risco de pensamento homogêneo e enriquecem o processo decisório. Em um ambiente empresarial cada vez mais exposto a transformações tecnológicas, pressões regulatórias e mudanças sociais, essa pluralidade de visões torna-se um ativo estratégico.
Há, também, um efeito que transcende aos resultados corporativos. Quando mulheres ocupam mais posições nos conselhos, ampliam-se as referências de liderança e as possibilidades de ascensão para novas gerações de profissionais. A diversidade, nesse sentido, não apenas melhora a governança das empresas, como também contribui para tornar o ambiente econômico mais inclusivo e representativo da sociedade.
O desafio agora é acelerar o ritmo da transformação. Programas como o PDeC Elas mostram que há talento, preparo e disposição para ampliar a diversidade nos conselhos brasileiros. O que falta, muitas vezes, é a decisão consciente das organizações de incorporar esse tema como parte central de sua estratégia de governança. Sem dúvida, o pluralismo é uma escolha estratégica para empresas que desejam permanecer relevantes, inovadoras e conectadas com o universo em que operam.
Sandra Morales
é gerente de Impacto Socioambiental do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).
comunicacao@ibgc.org.br