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As Assembleias de Acionistas de 2026 não serão mais um ritual burocrático para aprovar contas, renovar conselhos e validar políticas de remuneração. Elas se tornaram, de forma inequívoca, o palco onde se confrontam três forças que, a meu ver, estão redefinindo o capitalismo contemporâneo: a geopolítica estressante mente volátil, a pressão crescente dos investidores institucionais e a urgência de uma governança corporativa capaz de sustentar empresas em um mundo fragmentado.
Esta temporada de Assembleias de 2026 será a primeira totalmente moldada pelo “novo regime” descrito nas 2025 & 2026 Annual Chairman’s Letter to Investors de Larry Fink - menos globalização, mais risco geopolítico, IA como força concentradora de valor, energia e infraestrutura como temas estratégicos, e uma pressão crescente para que o capitalismo funcione “para mais gente”. Qualificando alguns dos pilares deste novo regime, entendemos que:
RISCO GEOPOLÍTICO TORNOU-SE TEMA DE GOVERNANÇA E DE VOTO
A guerra comercial entre grandes potências, a disputa tecnológica global, a corrida por autossuficiência energética e a reorganização das cadeias de suprimentos transformaram a geopolítica em um fator de risco tão relevante quanto câmbio, juros ou demanda.
Empresas que antes tratavam geopolítica como um capítulo periférico do relatório anual agora precisam demonstrar aos acionistas:
Em 2026, acionistas não aceitarão respostas vagas. Eles querem cenários, planos de contingência e clareza estratégica. Isso significa que, propostas de reorganização societária, realocação de plantas, diversificação de fornecedores e investimentos em resiliência podem ser questionadas ou apoiadas com mais intensidade. Conselheiros sem domínio de geopolítica podem ser rejeitados em votação de reeleição. A Assembleia será o lugar onde essa transparência - ou sua ausência - ficará evidente.
O NOVO CAMPO DE BATALHA DOS VOTOS PASSOU A SER IA, CONCENTRAÇÃO DE VALOR E DESIGUALDADE
Fundos de pensão, gestores globais e investidores de longo prazo estão mais vocalizados do que nunca. Eles sabem que o mundo mudou - e querem garantir que as empresas nas quais investem mudem junto.
Os institucionais estão exigindo:
Os investidores institucionais estão enviando um recado claro: “Governança não é cosmética, é sobrevivência.” A mensagem é inequívoca: quem não demonstrar maturidade de governança será penalizado nas votações - e, em alguns casos, no valuation.
MENOS RÓTULO ESG, MAIS PRAGMATISMO ENERGÉTICO E INDUSTRIAL
Realismo industrial, menos rótulo ESG, mais foco em como a empresa lida com energia, segurança, produtividade e inclusão financeira real. Quem continuar preso a um ESG superficial, de relatório, parecerá totalmente fora de sintonia com a realidade atual.
As Assembleias cobrarão coerência entre discurso e capex uma vez que o olhar dos acionistas poderá questionar:
O que impactará diretamente nas Assembleias:
MERCADOS DE CAPITAIS COMO “VOLANTE DA PROSPERIDADE”
Acreditamos que o crescimento virá dos mercados de capitais, não dos governos. Isso muda a expectativa dos acionistas pressionando por alocação de capital de longo prazo impactando as assembleias a partir de 2026 em:
EMPRESAS FAMILIARES: ASSEMBLEIAS MAIS EXIGENTES E MENOS TOLERANTES
O desafio é imenso: A combinação de sucessão, profissionalização e pressão de minoritários cria um ambiente em que: decisões centralizadas demais, conselhos simbólicos,falta de clareza estratégica e ou conflitos entre família e negócio podem se tornar bombas-relógio.
Profissionalização e institucionalização do capital:
Governança de sucessão em ambiente de ruptura:
Estratégia de localização e “friend‑shoring”:
Famílias empresárias que desejam preservar legado precisam entender que governança não é perda de controle - é a única forma de garantir continuidade em um mundo imprevisível.
EMPRESAS DE CAPITAL ABERTO: ASSEMBLEIAS MAIS TÉCNICAS E POLITIZADAS
A temporada de assembleias de 2026 será um teste de estresse. Conselhos mal preparados, políticas de remuneração desalinhadas, relatórios ESG superficiais e estratégias de IA improvisadas serão alvos de votos contrários - e de questionamentos públicos. Larry Fink na sua carta anual 2026 chama a atenção para:
Board com competência em geopolítica, IA e energia:
Transparência sobre alocação de capital de longo prazo:
O que está em jogo em 2026?
Reconfiguração da globalização e “friend‑shoring”
Corrida por energia e segurança
IA como ativo estratégico e vetor de desigualdade
“Capitalismo doméstico” e aposentadoria
As Assembleias deste ano vão decidir muito mais do que nomes de conselheiros ou políticas de dividendos. Elas vão definir:
Os “pontos de atrito” mais prováveis nas Assembléias de 2026, serão:
| Tema | Por que vai gerar atrito? | Quem pressiona? |
| Reeleição de Conselheiros | Falta de expertise em IA / Energia / Geopolítica | Institucionais |
| Planos de Remuneração | Desalinhamento com valor de longo prazo | Todos |
| Transição Energética | ESG superficial ou caro demais | Institucionais e Ativistas |
| Uso de IA | Risco de desigualdade e demissões | Funcionários e Minoritários |
| Estratégia de Localização | Cadeias frágeis ou dependência de países de risco | Institucionais |
| Sucessão em Empresas Familiares | Falta de clareza e profissionalização | Minoritários |
Empresas que entrarem na Assembleia de 2026 com discursos prontos e respostas genéricas sairão menores. Empresas que entrarem com clareza, coragem e governança sólida sairão fortalecidas.
Concluindo: 2026 é o ano em que as Assembleias deixam de ser um evento administrativo e se tornam um teste público de maturidade estratégica. A geopolítica exige resiliência. Os institucionais exigem responsabilidade. O mercado exige visão de longo prazo. E a sociedade exige que o capitalismo funcione para mais gente.
As empresas que entenderem isso agora estarão na linha de frente da próxima década. As que não entenderem… serão lembradas como parte de um modelo de Capitalismo que ficou para trás.
Adriana de Andrade Sole
é Engenheira Eletricista. Autora de livros sobre Governança Corporativa. Conselheira Fiscal da Vale S.A. e Sociedade Mineira de Engenheiros. Conselheira de Administração certificada pelo IBGC desde 2010 e da Editora Fórum. Professora convidada da FDC, PUC Minas e KPMG. Sócia fundadora da Tradecon Business empresa de consultoria. Especialista em estruturação de governança em organizações de pequeno e médio porte.
adrianasole2021@gmail.com