Imagine alguém que compra uma passagem para uma viagem de trinta dias. Durante meses, pesquisa hotéis, restaurantes, museus e passeios. Planeja o roteiro com cuidado, faz reservas, imagina cada detalhe e conta os dias para o embarque. No aeroporto, porém, descobre que o dinheiro que levou será suficiente para permanecer apenas quinze dias.
A viagem continua existindo. O planejamento é que terminou antes dela. Algo muito parecido acontece com a longevidade.
Viver cem anos tornou-se um novo sonho coletivo. Segundo uma pesquisa da empresa Data8, publicada pela Folha de S.Paulo, três em cada dez brasileiros com mais de 50 anos acreditam que viverão até os 100 anos. Não há nada de errado em desejar uma vida longa. O problema começa quando deixamos de nos perguntar quanto custa realizar esse sonho.
Quando li a pesquisa, minha primeira reação foi imaginar que quase um terço dos brasileiros estivesse superestimando suas chances de chegar aos cem anos. Afinal, segundo o Censo de 2022, o Brasil possuía pouco mais de 37 mil centenários, sendo 27.244 mulheres e 10.570 homens. Mesmo considerando a maior longevidade feminina, chegar aos cem anos continua sendo um acontecimento raro.
As tábuas de mortalidade do IBGE divulgam as probabilidades de sobrevivência apenas até os 90 anos. Utilizando um modelo atuarial clássico de sobrevivência, a Lei de Gompertz, estimei que um homem de 50 anos tenha menos de 1% de probabilidade de chegar aos 100 anos. Entre as mulheres, essa probabilidade é de aproximadamente 1,4%.
Segundo projeções das Nações Unidas, em 2065, o Brasil deverá ter cerca de 180 mil centenários, dos quais aproximadamente 60 mil serão homens e 120 mil, mulheres. À primeira vista, esse número parece expressivo. No entanto, ele representa apenas 8,7 centenários para cada 10 mil brasileiros. Em outras palavras, viver um século continua sendo uma possibilidade rara, e não um destino provável.
Mas de onde nasce essa expectativa otimista de viver 100 anos? Parte da resposta está na interpretação equivocada de uma das estatísticas mais conhecidas da demografia brasileira. Entre 1950 e 2022, a expectativa de vida ao nascer aumentou de 48,5 para 75,8 anos, um ganho de 27 anos e quatro meses. Ao ouvir esse número repetidas vezes, nosso cérebro tende a concluir, quase automaticamente, que viveremos muito mais do que as gerações anteriores.
A estatística está correta. A interpretação é que está errada.
Grande parte desse aumento decorreu da expressiva redução da mortalidade infantil e das mortes nas primeiras décadas de vida. Quando observamos apenas aqueles que já chegaram à velhice, a história é bastante diferente. Em 1950, um brasileiro que alcançava os 65 anos tinha expectativa de viver até aproximadamente 76,6 anos. Em 2022, essa expectativa passou para 82,8 anos, um ganho de pouco mais de seis anos. Nas idades mais avançadas, a diferença é ainda menor: quem chegava aos 85 anos ganhou, ao longo de mais de sete décadas, apenas dois anos e oito meses adicionais de expectativa de vida.
A expectativa de vida ao nascer aumentou dramaticamente. A expectativa de vida de quem já chegou à velhice cresceu muito menos.
Mas talvez essa nem seja a pergunta mais interessante. A questão realmente importante não é quantos brasileiros chegarão aos 100 anos. A pergunta que deveria nos preocupar é outra: como aqueles que acreditam que viverão tanto estão se preparando para financiar uma velhice que imaginam que poderá durar mais quatro ou cinco décadas?
É aqui que o verdadeiro problema aparece.
Segundo a nona edição do Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa realizada pela Anbima em parceria com o Datafolha, há um descompasso entre expectativa e comportamento. Sessenta por cento dos brasileiros que ainda não se aposentaram acreditam que a Previdência Social será sua principal fonte de renda na velhice. Quando observamos quem já está aposentado, a realidade é ainda mais contundente: 93% efetivamente dependem do INSS. Mesmo entre as classes A e B, metade acredita que dependerá da Previdência Social, mas, entre os aposentados, esse percentual sobe para 91%.
O comportamento é ainda mais preocupante. Apenas 16% dos brasileiros que ainda não se aposentaram começaram a formar uma reserva financeira para o futuro, o menor percentual desde o início da pesquisa. Enquanto isso, 84% continuam adiando essa decisão, e apenas 5% enxergam a previdência complementar como uma fonte relevante de renda para a aposentadoria.
Sonhar com uma vida longa é fácil. Difícil é aceitar que uma vida longa precisa ser financiada.
Confiar exclusivamente na Previdência Pública já seria arriscado em qualquer cenário. Torna-se ainda mais preocupante diante da profunda transformação demográfica brasileira. No ano 2000, havia 9,6 pessoas com idade entre 18 e 65 anos para cada brasileiro com 65 anos ou mais. Hoje, essa relação já caiu para aproximadamente 5,4. As projeções indicam que chegará a apenas 2,6 em 2050 e a 1,7 em 2070.
A matemática é simples e independe de ideologias. Cada vez menos trabalhadores financiarão a aposentadoria de um número cada vez maior de idosos. Ignorar essa realidade significa transferir para o futuro um problema que exige decisões no presente.
Charlie Munger costumava repetir um princípio aprendido com o matemático Carl Gustav Jacobi: muitos problemas ficam mais claros quando invertemos a pergunta. Em vez de perguntar como alcançar o sucesso, devemos perguntar como evitar o fracasso.
Talvez devêssemos fazer exatamente o mesmo com a longevidade. Em vez de perguntar quais são as chances de viver até os 100 anos, talvez a pergunta correta seja: se esse sonho se realizar, estarei preparado para financiá-lo?
Imagine chegar aos noventa ou cem anos. Não importa se ainda estará trabalhando, viajando ou brincando com os netos ou bisnetos. A única certeza é que desejará continuar tendo liberdade para decidir. A independência financeira talvez seja justamente isso: preservar o direito de continuar escolhendo a própria vida quando a idade já tiver retirado tantas outras possibilidades.
Pessoalmente, não sonho em viver cem anos. Meu desejo não é viver o máximo possível, mas viver com autonomia, lucidez e dignidade enquanto a vida fizer sentido para mim. Posso partir antes dos 70 anos ou ultrapassar os 100. Simplesmente não sei. É justamente por não saber que procuro planejar para não depender dos meus filhos nem privá-los de sua própria liberdade.
Como costumo dizer, só existem dois erros financeiros possíveis: poupar muito e morrer cedo ou poupar pouco e demorar para morrer. Encontrar o equilíbrio entre esses dois extremos talvez seja um dos maiores desafios do planejamento financeiro.
Não existe nada de errado em sonhar em viver cem anos. O erro é sonhar com essa longevidade sem assumir, no presente, o custo das escolhas que ela exigirá. Afinal, a verdadeira conquista não será apenas acrescentar anos à vida, mas garantir que esses anos possam ser vividos com autonomia, dignidade e independência financeira.
Jurandir Sell Macedo, CFP
é doutor em Finanças Comportamentais, com pós-doutorado em Psicologia Cognitiva pela Université Libre de Bruxelles (ULB) e diretor da Alento Educação Financeira.
jurasell@gmail.com