Ponto de Vista

TUDO PRECISA DE CONTABILIDADE E O MERCADO PRECISA DE CONFIANÇA

Poucos anos concentraram tantas mudanças simultâneas para a Auditoria Independente e a contabilidade brasileira quanto 2026. A profissão atravessa, ao mesmo tempo, a implementação da reforma tributária, o amadurecimento da agenda de sustentabilidade nas decisões de investimento e crédito, e a incorporação da inteligência artificial a processos que antes dependiam apenas do ser humano. São transformações de naturezas distintas, mas que convergem para o mesmo ponto: ampliam o que se espera do profissional que assegura a confiabilidade das demonstrações e informações financeiras.

Considerando esse ambiente de mudanças, o Ibracon realizou, em junho, a 16ª Conferência Brasileira de Contabilidade e Auditoria Independente e Conferência Latino-Americano de Auditoria & Governança. O encontro reuniu reguladores, líderes internacionais, acadêmicos, profissionais do mercado e mais de 2.100 participantes em torno dos temas que redefinem a profissão, da previsibilidade regulatória à segurança jurídica, da governança do mercado de capitais ao uso responsável da tecnologia. Mais do que um balanço do setor, a Conferência funcionou como espaço de construção coletiva, no qual os diversos agentes do ecossistema de governança confrontaram expectativas e responsabilidades.

A reforma tributária ilustra bem essa ampliação de responsabilidades. A transição para o novo modelo (com a introdução gradual do IBS e da CBS em substituição a um conjunto fragmentado de tributos) exigirá que empresas e auditores revisitem premissas contábeis e requalifiquem julgamentos, em um ambiente macroeconômico ainda instável. O desafio se soma a um dos maiores contenciosos tributários do mundo em proporção do PIB, e ao surgimento de novas frentes de litigiosidade, como a tributação de dividendos. Sem dúvidas, o auditor precisará de um repertório técnico mais amplo, que exige rigor e ceticismo profissional em doses iguais.

A agenda de sustentabilidade seguiu como um dos eixos centrais dos debates, tanto pelos avanços na integração entre informações financeiras e não financeiras nas decisões de investimento, quanto pelos desdobramentos regulatórios recentes. Um deles foi a decisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) de tornar voluntária a divulgação de informações relacionadas à sustentabilidade. A Resolução CVM 193, construída ao longo de quatro anos, havia colocado o Brasil em posição de vanguarda, ao incorporar de forma pioneira as normas internacionais do ISSB ao nosso arcabouço.

Como divulgado em manifesto assinado pelo Ibracon em conjunto com outras entidades (Amec, Apimec, CFC e Fipecafi), a migração para um modelo de adesão facultativa levanta um dilema técnico relevante já que tende a ampliar a heterogeneidade da informação disponível, com possível perda de comparabilidade entre companhias, o que afeta a incorporação de riscos aos modelos de avaliação e de crédito. A preocupação da autarquia com a proporcionalidade é compreensível, mas, num momento de consolidação internacional em torno das normas do ISSB, previsibilidade regulatória é o que os mercados emergentes precificam com mais atenção, com reflexos diretos sobre a percepção de risco e o custo de capital.

Nenhum desses temas se resolve pela atuação isolada de um só agente, e talvez tenha sido essa a mensagem mais consistente da Conferência. Um dos painéis reuniu vozes do mercado de capitais, da imprensa especializada e da sociedade civil para discutir os mecanismos que preservam a confiabilidade das informações financeiras. Prevaleceu ali a avaliação de que os episódios recentes de fraude corporativa revelam fragilidades distribuídas por diferentes camadas da estrutura de governança. Quando o investidor passa a duvidar se os números são fidedignos, se os conselhos cumprem seu papel e se os pareceres preservam valor, o mercado perde a base sobre a qual opera. O debate convergiu para a necessidade de tornar efetivos os mecanismos de responsabilização, com aplicação tempestiva das regras já existentes e coordenação entre os agentes, mais do que a criação de novas camadas normativas.

Nessa rede, o auditor independente ocupa um elo essencial, embora não seja o único. Sua função é oferecer ao mercado uma perspectiva externa que assegura de forma razoável a fidedignidade da informação – tarefa que só se sustenta quando acompanhada de comportamento ético e de sintonia com administradores, analistas, investidores e o conjunto da governança. A auditoria independente serve para fortalecer a transparência, a qualidade da informação e a confiança de todos os que dela dependem, sem a pretensão de eliminar cada risco do ambiente de negócios. Como afirmei na abertura da Conferência, mercados fortes não dependem de um único ator, dependem de uma rede de responsabilidades compartilhadas.

É essa convicção que dá sentido ao momento vivido pela profissão em escala global. A International Federation of Accountants (IFAC) conduz, em suas mais de 130 jurisdições, a campanha "Everything Needs Accounting", que reafirma a contabilidade como base de tudo o que se constrói em uma economia organizada. A mensagem chega ao Brasil em sintonia com as demandas internacionais da profissão e com o protagonismo que o país construiu nos últimos anos. Da confiança nos mercados à alocação eficiente de capital, da segurança jurídica à transparência que atrai investimento, pouco se sustenta sem contabilidade e sem auditoria independente.

Nessa mesma lógica de rede se insere o segundo volume da obra "Auditoria Independente: missão e responsabilidades – Estudos e pareceres", apresentado pelo Ibracon durante a Conferência. A publicação reúne estudos e pareceres de especialistas sobre os papéis, as responsabilidades e os limites dos diferentes agentes do ecossistema de governança, contribuindo para qualificar um debate que costuma se perder na busca por culpados fáceis. Ao delimitar com rigor técnico o alcance da atuação de cada elo, a obra ajuda o mercado a compreender que a auditoria independente responde por aquilo que lhe cabe, sem carregar sozinha o peso de falhas originadas em outras camadas da governança.

É esse o compromisso que o Ibracon reafirma no diálogo permanente que mantém com reguladores, entidades do mercado e organismos internacionais: o de defender um ambiente regulatório sólido, previsível e alinhado às melhores práticas.
Fortalecer essa profissão é fortalecer a confiança, e a confiança segue sendo o ativo mais valioso de qualquer mercado que pretenda prosperar.


Sebastian Soares
é o presidente do Ibracon – Instituto de Auditoria Independente do Brasil.
ibracon@ibracon.com.br


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