Sustentabilidade

A LÓGICA DA DUPLA MATERIALIDADE E O DESAFIO DE APLICÁ-LA CORRETAMENTE

A evolução dos reportes de Sustentabilidade no Brasil é inegável. Desde que a Global Reporting Initiative (GRI) se consolidou como referência, as empresas passaram a estruturar melhor seus impactos, ampliar o diálogo com stakeholders e fortalecer a transparência. Esse avanço foi importante, mas refletia uma lógica predominantemente orientada à identificação e gestão dos impactos da organização sobre a economia, o meio ambiente e as pessoas.

Esse cenário começou a mudar com a chegada da dupla materialidade no contexto europeu. A Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD), nova diretiva europeia de reporte corporativo, transformou a relação entre sustentabilidade e finanças em uma obrigação regulatória. Para orientar essa transição, os European Sustainability Reporting Standards (ESRS) foram desenvolvidos como o conjunto de normas técnicas que estabelece como a dupla materialidade deve ser conduzida, com critérios formais e maior rigor metodológico.

Mais do que uma evolução da materialidade tradicional, trata-se de uma abordagem integrada que analisa simultaneamente os impactos da empresa sobre pessoas e meio ambiente e os riscos e oportunidades financeiras relacionados a esses temas. Para que essa avaliação seja consistente, são necessários critérios claros de relevância, evidências que sustentem as conclusões e documentação capaz de suportar processos de auditoria e asseguração.

Nesse contexto, os ESRS representam atualmente o referencial mais completo e estruturado para operacionalizar a dupla materialidade, ao estabelecer critérios formais para a avaliação integrada de impactos, riscos e oportunidades. No Brasil, porém, o termo “dupla materialidade” foi incorporado com rapidez, muitas vezes sem a adoção da abordagem metodológica que lhe dá sustentação. Esse descompasso ajuda a explicar a proliferação de processos híbridos que nem sempre entregam o rigor esperado pelo conceito.

Parte dessa distorção também está relacionada à cultura da matriz de materialidade. Ao longo dos anos, a matriz tornou-se um artefato quase obrigatório nos relatórios de sustentabilidade, mesmo quando a metodologia exige uma lógica diferente. A dupla materialidade não se resume a uma matriz de temas prioritários. Embora a matriz possa ser utilizada como instrumento de comunicação dos resultados, ela não substitui o processo estruturado de avaliação previsto pelos ESRS. O foco passa a estar na análise de magnitude, probabilidade, efeitos financeiros presentes e futuros e na conexão direta desses fatores com a estratégia e a governança da organização. Além disso, essa avaliação amplia seu escopo para toda a cadeia de valor, considerando impactos, riscos e oportunidades associados tanto às operações próprias quanto às relações de negócio, fornecedores e demais elos relevantes.

O estado da arte no país reforça esse cenário. Como poucas empresas brasileiras estão efetivamente sujeitas à CSRD, muitas organizações continuam adotando metodologias híbridas. Em geral, utilizam a GRI para identificar temas relevantes e adicionam análises de riscos ou referências ao Sustainability Accounting Standards Board (SASB) para incorporar a dimensão financeira. Embora essas abordagens possam contribuir para a evolução da gestão da sustentabilidade, frequentemente resultam em avaliações parciais de impactos, riscos e oportunidades, distantes do nível de robustez metodológica previsto pelos ESRS.

Quando aplicada corretamente, a dupla materialidade permite que a sustentabilidade deixe de ser tratada como um conjunto de iniciativas paralelas e passe a integrar efetivamente a tomada de decisão corporativa. Ao conectar impactos, riscos e oportunidades e desempenho financeiro, a metodologia fortalece a capacidade das organizações de antecipar tendências regulatórias, direcionar investimentos, aumentar a resiliência dos negócios e gerar valor no longo prazo.

O problema é que aquilo que deveria ser um instrumento estratégico muitas vezes acaba se transformando em um exercício burocrático. Relatórios extensos, repletos de conteúdo, mas que pouco orientam decisões, não dialogam com o planejamento estratégico e não fortalecem a governança. Cumpre-se o checklist, mas perde-se a oportunidade de utilizar a sustentabilidade como um vetor real de criação de valor e de gestão dos desafios que moldarão o futuro das organizações.


Claudio Andrade
é CEO da Ratio Sustentabilidade - Comunicação Corporativa e Advisory ESG.
candrade@ratiois.com.br


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