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2026: UM ANO COMPLICADO PARA SER PROJETADO

O ano de 2026 se mostra como bastante complicado para projetarmos o que pode acontecer com a economia global e local, notadamente no que tange à indicação de investimentos, dada as incertezas reinantes.

Antes de traçarmos algumas hipóteses que julgamos importantes para tentar inferir caminhos prováveis, seria prudente esclarecer, a partir de curto retrospecto, o que foi o ano de 2025, principalmente após o início do mês de abril, quando o presidente americano Donald Trump anunciou seu plano de tarifação para as economias em todo o mundo, no que chamou de o “DIA DA LIBERTAÇÃO”, que diga-se de passagem, já tinha sido objeto de seus discursos de campanha, naquele tom “MAGA”, de Make America Great Again.

Ali, o Brasil, historicamente um bom parceiro e deficitário na balança comercial com os EUA foi teoricamente beneficiado e aquinhoado com tarifa de 10%. Teoricamente, por que até então a tributação aqui era da ordem de 1% / 2%. A partir daí reinou a incerteza no planeta, com países desenvolvidos se preparando para negociar com os EUA, ou para o pior, ter que assumir tarifas elevadas.

Na verdade, Trump mirava a China e seu desenvolvimento tecnológico acelerado que poderia tragar a hegemonia americana, e como coadjuvante um processo de substituição de importações trazendo de volta a indústria tradicional, caminho que os americanos já tinham abandonado décadas atrás. Tinha também a questão do déficit público sempre crescente, dívida impagável e juros exorbitantes para a economia americana.

Cabe dizer que os EUA têm déficit em sua balança comercial, mas são superavitários em serviços, que não compensam o déficit e, portanto, com saldo em conta corrente negativo. Mas isso nunca foi problema, já que os EUA dominam o ingresso de recursos para equilibrar suas contas externas, o que fica óbvio ao avaliar suas reservas. Assim, não haveria de ser tarifação que resolveria os problemas.

As tarifas para Trump tinham outra motivação implícita “transnacional”. Basta ver como agiu com o México, Canadá e o próprio Brasil com aquela carta encaminhada em julho de 2025, quando já nos primeiros parágrafos citava o ex-presidente Bolsonaro e represálias. A isso podemos agregar outras situações mais recentes decorrentes de sua ciclotimia e de seus assessores que fugiram do cardápio geral, como a invasão e sequestro do então presidente Maduro da Venezuela, do petróleo, sua ânsia de anexar a Groenlândia, ou ainda a intromissão na situação do Irã, sempre complicada.

De lá para cá as incertezas só ampliaram com países outrora parceiros históricos, buscando saídas e parcerias para reduzir a dependência dos EUA e do dólar. Mas uma boa parte do mal já parece feita: os EUA perderam um pouco a qualidade de “porto seguro” e o dólar a referência de moeda de proteção.

O Que Esperar para o Ano de 2026
Em nossa visão as incertezas acerca dos EUA vão adentrar pelo ano de 2026 e os próximos anos, com política econômica meio casuística e geopolítica também. Lembramos que no meio do ano teremos eleições para o Congresso americano e se Trump não for bem-sucedido, pode ficar sujeito até a impeachment, segundo sua própria avaliação.

Mas o que mais preocupa no plano global são os elevados déficits fiscais de diferentes países, incluindo aí o Brasil e países desenvolvidos, a inflação renitente e fora das metas (agora mais benigna), o nível de endividamento elevado das grandes potencias (China também); além das incertezas geopolíticas e o mundo tendendo para sistema binário de direita e esquerda e inúmeros conflitos entre os povos, com organismos multilaterais inoperantes.

Tudo isso vai permear as decisões de investimento dos aplicadores de recursos espalhados pelo mundo ao longo de 2026. Por aqui teremos eleições majoritárias que prometem ser polarizadas pelo que andam indicando as pesquisas, com o presidente Lula buscando o quarto mandato e saindo da cartilha da boa gestão da economia com medidas populistas gastadoras, buscando a tentativa de rápido e curto crescimento, piorando indicadores e relação dívida/PIB e dificultando o controle da inflação e aumentando os problemas para 2027.

É bom ressaltar que as projeções de inflação seguem distantes da meta de 3,0%, e portanto os juros básicos ainda vão permanecer altos e com endividamento crescente e possivelmente acima dos 80%. O PIB ora projetado fica abaixo do que deve ser registrado para 2025, o carregamento de 2026 complicado e a arrecadação não deve cobrir os gastos públicos, mesmo com arcabouço fiscal maquiado. O dólar no exterior (e também aqui) pode ter comportamento errático dificultando ainda mais.

E Como Ficam os Ativos no Brasil?
Nossas expectativas nesse quadro de incertezas podem ser um pouco melhores quando cotejadas com a situação econômica prevista. Dentre os países emergentes, o Brasil desponta como uma economia importante e como um dos maiores e mais eficientes mercados de capitais do mundo, mesmo quando nos deparamos com situações como o caso Banco Master.

Além disso, temos até aqui uma das maiores taxas de juros real do mundo e alguma segurança jurídica. Portanto, o Brasil segue sendo uma alternativa para aplicação de recursos vindo do exterior, seja para operações de curto prazo ou mais longo prazo, operações de carry trade ou aplicações em ações de empresas locais, BDRs e ETFs.

Possivelmente ainda teremos que conviver com taxas de juros elevadas por bom tempo e boa atratividade para os recursos. O que significa dizer boa demanda por títulos pré e pós fixados, até como receptores de recursos egressos de aplicação em dólar, por conta da instabilidade política do governo Trump.

No que tange ao mercado acionário, temos boas empresas rentáveis e com bom nível de governança com múltiplos atrativos no comparativo com outros mercados, isso mesmo considerando a forte alta da B3 de quase 50% em dólar em 2025. A capacidade adaptativa das empresas é grande e os impactos das tarifas impostas tendem a melhorar com as negociações que correm. Portanto, aqui também acreditamos em boa performance e projetamos que em algum momento de 2026 o Ibovespa possa estar acima dos 200.000 pontos, com retorno da ordem de mais de 20%.

Só esperamos que diante de todas as incertezas, a ousadia encontre as boas oportunidades.


Alvaro Bandeira
é Coordenador Macro da Comissão de Economia da APIMEC Brasil.
alvaro.bandeira@terra.com.br


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