Diversidade

ESG & GÊNERO NOS CONSELHOS BRASILEIROS: UM RETRATO ATUALIZADO DO IBRX 100

A agenda ESG consolidou-se como elemento estruturante no relacionamento das companhias abertas com o mercado. Para investidores, o tema deixou de figurar como tendência emergente e passou a compor o núcleo da análise de risco, estratégia corporativa e governança. Nesse contexto, a composição e a qualificação dos Conselhos de Administração tornaram-se indicadores essenciais na leitura de valor de longo prazo.

É justamente esse cenário que orienta o estudo ESG e Equilíbrio de Gênero nos Conselhos de Administração: Análise das companhias integrantes do índice IBrX-100, conduzido pelo 30% Club Brasil em parceria com o Núcleo de Estudos em Mercados Financeiros e de Capitais da FGV Direito SP, com apoio do IBGC. A pesquisa consolida, a partir dos Formulários de Referência de 2025 e de fontes públicas, um panorama inédito do nível de letramento ESG dos conselhos e da presença feminina nesses colegiados — temas cada vez mais centrais no diálogo com investidores.

Diversidade: avanços tímidos e lacunas persistentes
Entre os 1.196 conselheiros analisados, apenas 21,8% são mulheres. O número evidencia que a referência internacional de 30%, amplamente difundida, ainda está distante do universo das maiores companhias listadas na B3.

Para investidores institucionais, o dado é significativo. A literatura internacional associa conselhos diversos a decisões mais robustas, menor risco de groupthink, supervisão aprimorada e maior sensibilidade a riscos socioambientais e reputacionais. Ainda assim, a diversidade de gênero permanece concentrada em setores específicos e em cargos determinados.

Um aspecto relevante é a maior proporção de mulheres entre conselheiras independentes. Isso sugere que, quando o processo seletivo se pauta principalmente por critérios técnicos e de independência, barreiras à inclusão feminina tendem a diminuir — uma sinalização valiosa para políticas de governança.

Letramento ESG: predominância da Governança e assimetrias setoriais
O levantamento também identificou que a maior parte das competências ESG declaradas pelos conselheiros se concentra na dimensão de Governança, especialmente em contabilidade, finanças, auditoria e compliance. Já as dimensões Ambiental e Social aparecem de forma mais dispersa e, frequentemente, pouco detalhada.

Para relações com investidores, a assimetria é particularmente relevante. Em um ambiente de crescente pressão regulatória e sensibilidade a riscos climáticos e sociais, a baixa densidade de expertise ambiental e social pode limitar a capacidade das empresas de responder a crises, antecipar riscos e alinhar estratégia e narrativa de sustentabilidade.

No recorte setorial, companhias dos segmentos financeiro, consumo cíclico e não cíclico exibem maior presença feminina e mais experiências ESG declaradas. Já setores como materiais básicos, petróleo e gás e bens industriais apresentam os menores índices tanto de diversidade quanto de competências ESG.

Onde há mulheres, há mais ESG: uma correlação que merece atenção
O estudo indica uma correlação relevante: proporcionalmente, conselheiras mulheres apresentam maior número de experiências ligadas às dimensões Ambiental e Social, incluindo diversidade, políticas públicas, sustentabilidade e desenvolvimento comunitário.

Embora não se trate de causalidade automática, o achado reforça que a diversidade de gênero amplia o repertório estratégico dos conselhos — ponto central para investidores que demandam, cada vez mais, narrativas consistentes sobre governança climática, capital humano e impacto social.

Transparência: o desafio da informação incompleta
A pesquisa também expõe uma lacuna crítica: a qualidade das informações sobre competências ESG nos Formulários de Referência ainda é insuficiente. Embora atendam aos requisitos formais, os currículos divulgados raramente detalham de maneira clara e comparável a atuação dos conselheiros em temas ESG.

Esse déficit informacional dificulta análises, compromete comparabilidade e limita a capacidade do investidor de avaliar a efetiva qualificação do conselho — justamente em um momento em que a evolução de padrões globais exige maior precisão e transparência.

Recomendações para avançar

Para reguladores e autorregulação:
- Criação de campo específico no FRE para listar documentos ESG da companhia;
- Portal centralizado para disponibilização das informações;
- Campo padronizado no FRE para competências ESG de conselheiros;
- Modelos de CV e cartilhas de melhores práticas;
- Disponibilização ampliada em bases públicas para análises agregadas.

Para companhias:
-
Qualificar a divulgação de competências ESG dos conselheiros;
- Substituir descrições genéricas por informações efetivamente comparáveis;
- Integrar o tema à comunicação com investidores.

Um sinal claro ao mercado
Os indicadores do IBrX‑100 reforçam uma mensagem inequívoca: equilíbrio de gênero e qualificação ESG não são tópicos periféricos. São componentes centrais da estratégia, da percepção de risco e da credibilidade corporativa — e impactam diretamente a capacidade de geração de valor sustentável no longo prazo.


Alessandra Lehmen
é advogada no Brasil e em Nova York, Doutora pela UFRGS e Mestre por Stanford. Head do Comitê ESG do 30% Club Brazil.

Viviane Muller Prado
é professora da FGV Direito SP, coordenadora do Núcleo de Estudos em Mercados Financeiros e de Capitais e Doutora pela USP. Membro do Comitê ESG do 30% Club Brazil.

Tarsila Ferro De La Bandera Arcos
é advogada em São Paulo, Mestre e Doutoranda em Direito pela FGV Direito SP. Membro do Comitê ESG do 30% Club Brazil.
30percentclubbrazil@30percentclubbrazil.org


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