Em Pauta 3

SUSTENTABILIDADE COMO NOVO SINÔNIMO DE PERENIDADE

Vivemos um momento de contrastes. Enquanto parte da sociedade questiona a agenda ESG, acusando-a de excessos ou de perda de foco econômico, muitas empresas e investidores seguem convictos de que a sustentabilidade é - e continuará sendo - um motor essencial dos negócios. Atualmente, o tema é, além de uma escolha ética, também uma decisão estratégica, diretamente associada à competitividade, à inovação e à geração de valor de longo prazo.

Sob a ótica jurídica e corporativa, a sustentabilidade deixou de ser apenas um compromisso reputacional para se tornar um elemento de governança e gestão de riscos. As companhias que incorporam critérios ESG à sua estrutura de decisão ampliam sua segurança jurídica, fortalecem o relacionamento com stakeholders e antecipam tendências regulatórias que, inevitavelmente, moldarão o ambiente de negócios nos próximos anos.

Um estudo publicado neste ano pela consultoria EY mostra que empresas europeias que integram sustentabilidade à sua estratégia têm desempenho superior em praticamente todos os indicadores: maior capacidade de inovação (43%), melhor reputação de marca (63%), maior retenção de talentos (68%) e impacto social ampliado (69%). Segundo o estudo, intitulado “O Futuro da Sustentabilidade nos Negócios”, essas organizações, classificadas como Sustainability Integrators, demonstram que sustentabilidade e performance não são opostos, mas interdependentes.

Essa constatação revela uma transição importante: mesmo diante do surgimento recente de questionamentos à agenda ESG, cresce o número de consumidores conscientes, investidores atentos e legislações mais rigorosas que elevam o padrão de responsabilidade das empresas. A sustentabilidade, portanto, precisa deixar de ser uma área isolada — o famoso “departamento de ESG” — para se tornar um elemento estruturante da governança corporativa, presente desde a agenda do Conselho de Administração até a operação.

Nesse contexto, desenvolver uma governança capaz de avaliar riscos e, principalmente, oportunidades relacionadas a clima, natureza e direitos humanos é essencial. Do ponto de vista jurídico-empresarial, isso significa integrar a sustentabilidade aos mecanismos de compliance, aos contratos e às políticas internas, assegurando coerência entre propósito, práticas e resultados. As organizações que internalizam essa visão constroem modelos de negócios mais resilientes e capazes de gerar valor em múltiplas dimensões — ambiental, social e econômica.

O estudo citado neste artigo também mostra que 91% das empresas sentem pressão dos investidores para acelerar práticas sustentáveis. A resposta mais eficaz a essa demanda é a integração genuína: eliminar silos, disseminar competências de sustentabilidade em todas as áreas e investir em dados e tecnologia para monitorar o impacto. Essa integração cria confiança — um ativo cada vez mais valioso em tempos de incerteza.

A verdadeira evolução da agenda ESG está em transformar impacto em novos negócios, substituindo fontes fósseis por soluções renováveis e criando cadeias produtivas mais circulares. Como advogada corporativa, vejo que o papel do jurídico é atuar como parceiro estratégico, orientando a empresa para que o compromisso com o ESG se traduza em inovação, mitigação de riscos e geração de valor de longo prazo.

O futuro dos negócios não é linear: é circular, integrado e responsável. O cuidado com o meio ambiente e com as pessoas deixou de ser apenas um valor para se tornar uma competência estratégica. Ele guia decisões, inspira inovações e conecta empresas, investidores e consumidores que compartilham a mesma visão: a de que não há futuro sem sustentabilidade.

Em um mundo em transição, a sustentabilidade é o novo sinônimo de perenidade. Mais do que uma pauta ética, é uma estratégia jurídica e empresarial que permite inovar sem limites, crescer de forma responsável e garantir a longevidade das organizações.


Karin Neves
É executiva jurídica com mais de 20 anos de experiência em Direito Corporativo, ESG e Governança. Atuou em empresas nacionais e multinacionais de setores regulados, liderando projetos de certificação B, GPTW e relatórios ESG. Atualmente é Diretora Jurídica, Pessoas e Sustentabilidade e também Conselheira Fiscal.
klneves@hotmail.com


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