Gestão de Riscos

SAÚDE MENTAL: DO JANEIRO BRANCO À NOVA FRONTEIRA DA GESTÃO ESTRATÉGICA EMPRESARIAL

O debate sobre saúde mental no ambiente de trabalho mudou de nível. Deixou de ser uma pauta 'acessória' para se firmar como um risco estratégico que exige atenção imediata. Diante desse cenário global de alta complexidade e volatilidade, marcado por incertezas em todas as frentes (social, política, econômica e tecnológica), a habilidade de uma organização em zelar pelo seu capital humano não é apenas ética, mas sim um poderoso diferencial competitivo. Isso se traduz em ganhos diretos: mais produtividade, maior capacidade de reter os melhores talentos e, fundamentalmente, um Retorno sobre o Investimento muito mais robusto.

A urgência regulatória e o imperativo financeiro encontram eco na sabedoria da liderança empresarial. Em entrevista à Revista RI (Dez.2025), o empresário Jorge Gerdau reforça o conceito fundamental de que “Business is people”, um princípio que ele traz como o principal legado de sua trajetória. Essa visão se alinha ao modelo estrela de Jay Galbraith, que postula que a estratégia só é efetiva quando há alinhamento entre Estrutura, Processos, Recompensas e Pessoas.

A gestão de riscos psicossociais atua diretamente no pilar "Pessoas", garantindo que a força de trabalho esteja apta a executar a estratégia. Entre a estratégia e os resultados, existem as pessoas. Na última entrevista à Orquestra Societária, Gerdau orienta que a verdadeira medida de eficiência e produtividade não está em números frios, mas na qualidade e motivação das equipes: ao priorizar a educação, o treinamento e o propósito, a empresa deixa de ser apenas uma estrutura produtiva para se tornar um espaço do desenvolvimento humano, a empresa se torna um espaço onde o sucesso coletivo é o reflexo direto do bem-estar de cada indivíduo.

Ao fazer essa leitura, conectei esses pontos a um tema que urge nesse primeiro trimestre para todas as empresas: a evolução regulatória da Norma Regulamentadora nº 01 (NR-01).

A NR-01, ao exigir o mapeamento de riscos psicossociais, torna-se o instrumento regulatório que força o alinhamento dessa estrutura, garantindo que a "paixão" não se converta em burnout e que o "amor" pela empresa seja recíproco. Essa é a fronteira onde a materialidade da NR-01 encontra o propósito do 'Business is People' para gerar valor sustentável.

A relevância que a norma ganhou recentemente deriva de uma atualização que reflete a mudança de paradigma no mundo corporativo: a inclusão expressa dos fatores de risco psicossociais no inventário de riscos do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Essa abordagem exige que as empresas olhem de perto para como o trabalho é planejado e executado no dia a dia. Não se trata apenas de processos, mas de identificar gargalos perigosos: metas que ninguém consegue alcançar, excesso de tarefas, problemas de comunicação ou casos de assédio. Quando esses riscos não são controlados, o preço é alto, afetando não só o equilíbrio mental do funcionário, mas também sua saúde física e sua vida social.

O que mudou foi a intencionalidade e a materialidade com que o risco psicossocial passou a ser tratado. A partir de maio de 2026, a fiscalização plena exigirá que as empresas demonstrem, de forma documentada e integrada ao PGR e à NR-17 (Ergonomia), a gestão desses fatores, movendo o tema do campo da "boa vontade" para o da conformidade legal e do risco operacional.

Onde a gestão falha no invisível, o caixa sente no tangível: transformar riscos psicossociais em ROI é o novo imperativo da liderança.

Com essa exigência regulamentar, a saúde mental deixa de ser custo e tem a oportunidade de ser tratada como vantagem competitiva. A gestão ineficaz dos riscos psicossociais se traduz em custos tangíveis e intangíveis.

Os dados do CONTEC Brasil, Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Empresas de Crédito, indicam que o país tem enfrentado uma crise de saúde mental, registrando mais de 470 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais em 2024, o maior número em uma década. Certamente, o crescimento dos afastamentos por ansiedade e burnout pressiona os custos previdenciários e operacionais das empresas. A crise da saúde mental afeta pessoas e balanços, considerando os índices de absenteísmo, turnover e impactos na produtividade.

A visão moderna de gestão inverte essa lógica, tratando o investimento em saúde mental como um motor de performance e um ativo estratégico. No mundo, segundo a ONU, já passamos de 1 bilhão de pessoas sofrendo com algum transtorno mental. Incrivelmente, os casos de ansiedade e depressão já geram um prejuízo anual de US$ 1 trilhão para a economia mundial. Por isso, quando falamos em prevenir riscos psicossociais, não estamos tratando de um custo burocrático ou de um benefício isolado. É, na verdade, uma escolha de gestão financeira. Esse cuidado impacta a estrutura de custos da empresa e reflete, de forma muito clara, na última linha do balanço.

Por trás de cada estatística de absenteísmo, rotatividade ou processo judicial, existe uma história de esgotamento humano. O alto custo relacionado às ações judiciais por burnout é o reflexo financeiro de um gap enorme na proteção do capital humano. A gestão humanizada, que enxerga o colaborador não como um recurso, mas como um indivíduo, transforma a prevenção em um imperativo ético e econômico. Ao mitigar o risco de incidência desse impacto na saúde mental, a empresa não só evita passivos bilionários, mas constrói um ambiente de confiança e lealdade, onde o bem-estar do indivíduo se traduz em resiliência e performance coletiva.

Aqui a responsabilidade passa a ser de ambos os lados: a empresa promove práticas capazes de mitigar os riscos e permite que cada funcionário desenvolva a sua real capacidade de entregar os resultados.

A prática da conscientização por campanhas dos "meses em cores" tem sido fundamental para um alerta mais difundido sobre temas de saúde. Percebemos muitas campanhas de conscientização que se desenrolam em cores ao longo do ano, do janeiro branco ao setembro amarelo, pretendemos chegar ao dezembro de todas as cores. O Janeiro Branco, dedicado à saúde mental, ilustra perfeitamente a transição necessária da conscientização para a materialidade.

Por muito tempo, a saúde mental nas empresas se resumiu a palestras pontuais em janeiro. A nova exigência da NR-01 e a visão de ROI demandam que as empresas transformem a campanha em um marco de planejamento estratégico. A intencionalidade reside em usar o Janeiro Branco não apenas para falar sobre o tema, mas para lançar ou revisar o plano de ação de gestão de riscos psicossociais, integrando-o ao ciclo anual de planejamento.

A materialidade, neste contexto, significa implementar ações concretas e mensuráveis, como:

  • Ciclos de palestras que harmonizam as regras exigidas a uma comunicação alinhada à cultura organizacional.
  • Workshops e mentorias para o treinamento contínuo de lideranças, capacitando-as a identificar e intervir em situações de risco.
  • Criação de canais de escuta e apoio psicológico contínuo.
  • Revisão de metas e cargas de trabalho.
  • Inclusão de KPIs de bem-estar nos dashboards de gestão.

A melhor prática da gestão de riscos psicossociais é alcançada quando integrada ao ciclo Planejamento Estratégico, Gestão de Riscos e Tomada de Decisão. Nesse modelo, os riscos psicossociais são vistos como riscos operacionais e de compliance que, se não mitigados, ameaçam a estratégia. Isso se manifesta em três eixos:

1. Planejamento: A saúde mental é um ativo crítico para a excelência operacional.

2. Gestão de Riscos: O mapeamento da NR-01 informa o apetite a risco da organização.

3. Tomada de Decisão: A liderança balanceia o risco de sobrecarga (ganho de curto prazo) com o risco de esgotamento (comprometimento de longo prazo).

Em síntese, empresas que operam com essa visão integrada não apenas cumprem a NR-01, mas a utilizam como um catalisador para a criação de valor. Elas constroem bases sólidas para o crescimento sustentável, mitigam riscos relevantes e tomam decisões mais inteligentes, consistentes e alinhadas aos seus objetivos estratégicos de longo prazo, melhorando o impacto do cuidado na gestão da saúde mental na produtividade, mitigando o absenteísmo e a rotatividade.

Retornando a Jorge Gerdau, em seu livro A BUSCA, ele encerra trazendo 23 palavras que são a base de tudo que viveu e construiu na sua trajetória. Tais palavras não descrevem as disciplinas técnicas adotadas na sua gestão, mas revelam valores profundos, princípios éticos e dimensões humanas que moldaram sua forma de viver e liderar. Tudo isso aponta para a liderança com propósito, guiada pela coerência entre o que se acredita e o que se pratica.

Empresas mais respeitadas são feitas de gente que cultiva valores e propósito alinhados à sua cultura e, com isso, produzem resultados cooperando para a longevidade. Deixo um convite à reflexão: o verdadeiro legado não está no que se sabe, mas no que cultivamos e deixamos de exemplo.


Luciana Tannure
é especialista em estratégia de expansão de negócios e inovação. Mentora empresarial, e de Carreira, Conselheira Consultiva certificada, Membro da Comissão de Governança e Estratégia Empresarial pela Board Academy BR. Executiva Sênior com mais de 30 anos de experiência em empresas nacionais e multinacionais. Engenheira pela PUC-RJ com MBA em Gestão Empresarial pela FGV e pós-graduação em Finanças Corporativas e Sistemas de TI.
luciana.tannure@gmail.com


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