Em Pauta 2

O FORMULÁRIO DE REFERÊNCIA COMO O NOVO CENTRO DE VALOR

Durante muitos anos, o Formulário de Referência foi visto como um documento essencialmente regulatório, extenso, técnico e voltado principalmente ao cumprimento das exigências da CVM e da B3. Hoje, esse papel mudou. Na prática, ele se tornou o principal repositório estratégico de informações da companhia, funcionando como um verdadeiro livro vivo do negócio.

Em um mercado cada vez mais orientado por dados, riscos e sustentabilidade, investidores já não avaliam empresas apenas por seus números históricos. Eles querem entender como o modelo de negócios se sustenta no futuro. É exatamente nesse ponto que o Formulário de Referência passa a ocupar um lugar central, sobretudo com a chegada dos novos padrões internacionais de divulgação de sustentabilidade: IFRS S1 e IFRS S2.

O processo anual de atualização do Formulário de Referência, tradicionalmente concentrado até o final de maio, é hoje um dos exercícios mais estratégicos de governança corporativa. Nele, a companhia revisita seu modelo de negócios, seus principais riscos, sua estrutura de governança, suas políticas, controles e práticas, e, cada vez mais, sua agenda ESG e climática.

Esse mapeamento transforma o Formulário em um ponto de convergência entre o relatório financeiro, o informe de governança corporativa e o relatório de sustentabilidade. O resultado é um documento que não apenas atende às normas, mas constrói a narrativa de valor da empresa.

O IFRS S1 marca uma mudança de paradigma, pois exige que a empresa divulgue todas as questões de sustentabilidade que possam afetar materialmente sua geração de caixa, seu custo de capital ou seu valor econômico.

Isso significa que temas como clima, pessoas, cadeia de suprimentos, direitos humanos, diversidade ou uso de recursos naturais deixam de ser tratados apenas em relatórios voluntários e passam a integrar o núcleo do relato corporativo.

No Formulário de Referência, essas exigências se conectam diretamente às seções de: fatores de risco, estratégia, governança, gestão de riscos e controles internos e indicadores-chave de desempenho.

Na prática, o IFRS S1 transforma o Formulário em um espelho de como a empresa identifica, avalia e gerencia riscos e oportunidades ESG que impactam o valor do negócio.

O IFRS S2 aprofunda ainda mais essa integração ao exigir divulgações detalhadas sobre riscos e oportunidades relacionados ao clima. Não se trata mais apenas de falar sobre emissões ou iniciativas ambientais, mas de explicar: como eventos climáticos extremos podem afetar ativos e operações, como a transição para uma economia de baixo carbono impacta custos, receitas e investimentos e como a empresa está se posicionando estrategicamente nesse novo cenário.

No Formulário de Referência, isso dialoga diretamente com: riscos de mercado e regulatórios, planos de investimento e Capex, projeções de longo prazo, e a própria continuidade do negócio.

Para investidores, esse é um avanço decisivo: o risco climático passa a ser tratado com o mesmo rigor que risco cambial, operacional ou de crédito.

Talvez o maior impacto dos IFRS S1 e S2 para a área de Relações com Investidores seja a exigência conectividade da informação. O mercado passa a exigir que o conteúdo que está no Formulário de Referência, no relatório financeiro e no Relatório de Sustentabilidade "conversem entre si", ou seja, usem as mesmas premissas e sustentem a mesma narrativa.

Isso reduz inconsistências, aumenta a credibilidade e fortalece a confiança do investidor. Para RI, significa trabalhar cada vez mais de forma integrada com finanças, sustentabilidade, riscos, jurídico e governança.

Nesse contexto, o Formulário de Referência deixa de ser um documento estático e se consolida como o principal hub de informações estratégicas da companhia. Ele passa a mostrar, de forma clara e conectada como a empresa gera valor hoje, quais riscos enfrenta, como está preparada para o futuro, e como fatores ESG e climáticos influenciam tudo isso.

É a combinação de rigor regulatório, inteligência estratégica e comunicação clara que define o novo padrão de relato corporativo.

Na era do IFRS S1 e S2, o Formulário de Referência não é mais apenas um formulário. Ele é o livro vivo da empresa, onde estratégia, riscos, governança, sustentabilidade e clima se unem em uma única narrativa de valor.

Para RI, isso representa uma oportunidade única. Transformar um documento obrigatório em uma poderosa ferramenta de diálogo com o mercado, capaz de traduzir o presente e, principalmente, o futuro da companhia.


Suelen Hames
é graduada em Ciências Contábeis pela UFSC, com MBA em Auditoria, Controladoria e Finanças pela FGV, é coordenadora de Relações com Investidores, Inteligência de Mercado e Automatização do Portobello Grupo.
suelenhames1983@gmail.com


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