A NVIDIA é oficialmente a empresa mais valiosa do planeta. Com uma capitalização de mercado em torno de US$ 4,5 trilhões, ultrapassou gigantes como Apple, Alphabet, Microsoft e Amazon. Seus chips alimentam a revolução da inteligência artificial, desde o ChatGPT até os sistemas de direção autônoma da Tesla. Toda grande empresa de IA depende da NVIDIA, a infraestrutura invisível do futuro.
Mas aqui está o paradoxo: quase ninguém sabe o que a NVIDIA faz. Pergunte a dez pessoas na rua o que é a NVIDIA. Agora pergunte sobre a Apple, sobre a Amazon ou sobre a Coca-Cola. A diferença é clara e mensurável.
De acordo com o mais recente relatório Brand Finance Global 500 2026, o valor da marca NVIDIA deu um salto monumental para $184,3 bilhões, catapultando a empresa para a 5ª posição no ranking das marcas mais valiosas do mundo. Este é um crescimento impressionante de 110% em relação ao ano anterior, superando marcas icônicas como Facebook e Walmart. No relatório de 2025 da Interbrand, a marca estava avaliada em $43,2 bilhões e ocupava a 15ª posição.
No entanto, mesmo com este avanço espetacular, o valor da marca da NVIDIA representa apenas 4,09% de sua capitalização de mercado de $4,5 trilhões. Embora seja um aumento notável em relação aos 0,96% do ano anterior, a disparidade em comparação com outros gigantes da tecnologia permanece gritante.
Se a NVIDIA alcançasse a média de 12% de valor de marca em relação ao valor de mercado, observada entre as maiores empresas de tecnologia, seu brand value deveria ser de $540 bilhões. Isso revela uma lacuna de $355,7 bilhões em valor ainda não capturado. Um montante que supera o valor de mercado de empresas como Netflix ou Adobe.
Por que esse gap existe? A NVIDIA cresceu rápido demais. O boom da IA catapultou seu market cap em velocidade recorde, mas a marca não acompanhou. A empresa ainda é percebida como uma fabricante de placas de vídeo para gamers ou, no máximo, como uma fornecedora B2B de chips para data centers.
Mas a NVIDIA é muito mais do que isso. Trata-se do motor da revolução de IA. É a plataforma sobre a qual o futuro está sendo construído. O problema? Ninguém associa NVIDIA com IA da mesma forma que associa Apple com inovação ou Tesla com carros elétricos.
É uma questão de trilhões de dólares. Agora, vamos imaginar como seria se a NVIDIA investisse seriamente em marca. Vamos aos números: estudos como o da Lynn University, que analisou empresas do ranking Interbrand entre 2001 e 2013, comprovam que empresas com brand equity consistentemente superam o mercado. Portfólios das Top 5 empresas em crescimento de marca tiveram performance significativamente superior ao S&P 500.
Além disso, companhias com marcas fortes desfrutam de múltiplos de valuation 20-40% superiores se comparadas às empresas sem marca estabelecida. Tem uma menor volatilidade de ações (redução de até 30%) e premium pricing de 30-40% acima de concorrentes.
Agora, imagine a NVIDIA aplicando esses princípios, com condiçoes de atingir o mesmo ratio brand/market cap da Apple (13.4%). Seu brand value saltaria para $603 bilhões. Com múltiplos de valuation 30% maiores (conservador, dado o histórico), o market cap potencial seria de $5,85 trilhões. Upside de $1,35 trilhões. Apenas com brand building.
Imagine uma campanha “Build on NVIDIA” que torne visível a infraestrutura invisível. Imagine parcerias estratégicas que coloquem o logo da NVIDIA em produtos de consumo. Imagine o storytelling que conecte a marca à revolução de IA de forma emocional, não apenas técnica. A tecnologia já está lá. A liderança de mercado já está lá. O que falta? A marca.
A NVIDIA tem uma vantagem competitiva tecnológica inegável. Mas vantagens tecnológicas são temporárias. AMD e Intel estão investindo bilhões para competir. Startups chinesas estão surgindo. A liderança de hoje pode ser a commodity de amanhã. Mas uma marca forte é uma vantagem competitiva sustentável. É o que protege margens. É o que cria lealdade. É o que transforma clientes em defensores.
A Coca-Cola não vende o melhor refrigerante do mundo. Ela vende a marca Coca-Cola e isso representa 52% do seu valor de mercado. A Apple não vende os melhores computadores, mas a experiência Apple e isso vale $470 bilhões.
A NVIDIA vende o futuro. Mas ainda não vende a marca NVIDIA. Jensen Huang, CEO da NVIDIA, é um visionário tecnológico. Ele construiu a empresa mais valiosa do mundo apostando em IA quando ninguém acreditava. Agora ele enfrenta um desafio diferente, que é transformar a NVIDIA de uma empresa de tecnologia em uma marca global. Não é sobre abandonar a excelência técnica. É sobre amplificá-la com storytelling, visibilidade e conexão emocional. É sobre fazer com que cada pessoa que usa IA saiba que a NVIDIA está por trás. É sobre criar o mesmo tipo de lealdade que a Apple criou, mas agora na era da inteligência artificial.
A oportunidade é clara. A lacuna de mais de $350 bilhões em valor de marca está à espera de ser preenchida. O relatório de 2026 mostra que a jornada já começou e está em ritmo acelerado. A questão não é mais se a NVIDIA deve investir em marca, mas como ela pode acelerar essa transformação para consolidar seu legado como a marca definidora da era da inteligência artificial.
A companhia mais valiosa do mundo pode ser a marca mais valiosa do mundo. Ainda não chegou lá. Mas poderia e deveria.
Rodrigo Cerveira
é CMO da Vórtx e co-fundador do Strategy Studio. Com 30 anos de experiência em estratégia, liderança e desenvolvimento de negócios globais e locais, é especializado em construção de marca e estratégia criativa. É formado em Publicidade e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero, com Extensão em Gestão pelo INSEAD (Instituto Europeu de Administração de Negócios).
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