A pergunta de 2026 exige duas respostas. Resposta curta: Não. Resposta correta: A Sustentabilidade saiu da fase de hype e reação política e entrou numa etapa mais dura, mais silenciosa e orientada a execução.
Tenho sido perguntada com frequência curiosa se o ESG “morreu”. A pergunta quase sempre vem acompanhada de um suspiro, às vezes aliviado, como se algo incômodo tivesse finalmente sido removido da agenda corporativa. Minha resposta tem sido sempre a mesma: Não, o ESG não morreu! Mas entendo perfeitamente por que tanta gente gostaria que tivesse.
O que morreu foi algo bem mais específico - e bem mais conveniente: a Sustentabilidade performática, confortável, pouco exigente e amplamente dissociada das decisões econômicas reais das empresas. E é exatamente aí que começa o desconforto.
Durante anos, Sustentabilidade virou uma espécie de safe space corporativo. Um território onde era possível falar muito, prometer bastante e decidir pouco. Um espaço relativamente protegido do tipo de escrutínio que conselhos, investidores e auditores costumam aplicar a qualquer tema que afete caixa, risco ou capital.
Enquanto o ambiente político e regulatório era favorável, esse modelo funcionou. Relatórios cresceram, compromissos se multiplicaram - e a distância entre discurso e decisão permaneceu confortável.
Mas 2025 foi um ano ingrato com ilusões. E, como todo bom teste de estresse, não destruiu o sistema - apenas revelou suas fragilidades. O ESG não caiu porque era irrelevante. Ele caiu porque foi tratado como retórica quando já deveria ter sido tratado como Governança.
Do ponto de vista real, o da Governança, 2025 não representou uma “virada contra o ESG”. Representou algo mais simples e mais duro: o momento em que Sustentabilidade passou a ser cobrada como qualquer outro tema material.
Quando o ambiente político se tornou instável, quando o reset regulatório reduziu a margem para ambiguidade e quando investidores começaram a perguntar, sem paciência:
Muita coisa que parecia sólida mostrou-se ornamental e três fragilidades ficaram evidentes.
A primeira foi a dependência excessiva de narrativa. Sustentabilidade baseada em valores genéricos, slogans e alinhamentos simbólicos funciona enquanto ninguém testa sua resiliência. Quando o teste vem, ela colapsa rapidamente.
A segunda foi a assimetria entre discurso e capacidade operacional. Relatórios sofisticados conviviam com sistemas frágeis, dados inconsistentes e decisões estratégicas que seguiam exatamente como antes.
A terceira foi a mais incômoda: a ausência de tradução econômica. Havia opinião, intenção e posicionamento - mas não havia impacto mensurável em risco, retorno ou capital. Para investidores, isso é irrelevante. Para conselhos, é perigoso. O que realmente morreu foi a conveniência de tratar sustentabilidade como um tema:
Esse modelo era confortável porque não exigia escolhas difíceis. Não obrigava a priorizar. Não forçava trade-offs. Não alterava a alocação de capital. Mas também não criava valor de forma consistente. E o mercado, cedo ou tarde, cobra consistência.
O novo estágio é menos simpático, e muito mais sério. O que emerge agora não é uma versão “enfraquecida” do ESG performático. É uma versão mais dura, menos tolerante e muito mais exigente.
Sustentabilidade deixou de ser um campo de intenções e passou a ser um campo de teste econômico. Hoje, ela só permanece onde consegue responder - sem rodeios - às perguntas que investidores sempre fizeram:
Quando a resposta é clara, a Sustentabilidade se sustenta. Quando não é, ela perde espaço - e corretamente. A retórica pode até sobreviver em alguns círculos. O capital, não. Aqui ocorre a mudança mais profunda, e menos compreendida. O que está em curso não é apenas um ajuste de expectativas de investidores. É a transformação da Sustentabilidade em infraestrutura de mercado, condição mínima para:
Mercado Global
China, União Europeia e o ISSB não estão expandindo o ESG, estão redefinindo as regras de acesso. O movimento da China ao alinhar seus padrões de divulgação ao ISSB passou despercebido por muitos executivos brasileiros, mas não pelos mercados.
O recado implícito é pragmático: para operar, exportar, financiar ou integrar cadeias globais, o disclosure alinhado ao IFRS S1 e S2 deixa de ser diferencial e passa a ser infraestrutura básica. Isso reduz fricção informacional, acelera due diligence e diminui incerteza percebida. O resultado aparece onde sempre aparece: no custo de capital e no preço dos ativos.
IFRS S1 e S2, nesse contexto, não são ESG, são linguagem comum de mercado. O mesmo ocorre na relação com a União Europeia. O acordo “Mercosul-EU” não criou acesso automático ao mercado europeu. Criou algo mais sofisticado: acesso condicionado à prova auditável de conformidade Socioambiental. A barreira deixou de ser tarifária e passou a ser regulatória, operacional e fiduciária. Rastreabilidade e due diligence deixaram de ser vantagem competitiva e tornaram-se passaporte obrigatório.
Esse novo ambiente não produz riscos abstratos. Produz impactos financeiros diretos. Falhas de rastreabilidade, não conformidade regulatória ou perda de acesso a mercados se materializam rapidamente em:
Isso não é Sustentabilidade, é Gestão de Risco financeiro. E é exatamente isso que IFRS S1 e S2 exigem que seja identificado, avaliado e divulgado. O erro estratégico: tratar tudo isso como “compliance”. Muitas empresas ainda tratam esse novo ambiente como um problema de compliance operacional, e esse é um erro estratégico grave. O desafio não é cumprir um checklist. É integrar riscos regulatórios, climáticos e de cadeia de valor à estratégia, ao capital e à governança. Sem isso, a empresa não está em transição, está exposta.
Quando a Sustentabilidade deixa de ter dono, ela começa a funcionar. Um dos sinais mais claros de maturidade organizacional é a perda de protagonismo formal da área de sustentabilidade. Isso costuma ser interpretado como enfraquecimento, e é exatamente o oposto.
Quando finanças precificam risco, vendas gerenciam exposição regulatória, jurídico assume riscos de disclosure e estratégia incorpora cenários de transição, a Sustentabilidade deixa de ser discurso. Ela vira infraestrutura decisória. E é aqui que o desconforto aumenta.
A introdução das IFRS S1 e S2 no Brasil não representa a evolução de mais um framework ESG, representa uma mudança de natureza jurídica da informação de sustentabilidade. A partir desse ano de 2026, com publicação obrigatória em 2027, essas normas passam a integrar o núcleo duro do dever fiduciário. Isso não é retórica regulatória... é arquitetura institucional.
Mas a pergunta errada continua sendo feita; agora com risco pessoal embutido. Ainda escuto perguntas como: “Isso é mais um relatório?” e “Até onde precisamos ir no primeiro ano?”. Essas perguntas revelam um erro de enquadramento que agora gera risco real.
IFRS S1 e S2 tratam de informação relevante para decisão econômica, dirigida a investidores e ao mercado de capitais. Quando essa informação é omitida, distorcida ou negligenciada, o problema deixa de ser técnico, torna-se fiduciário.
Conselho e Diretoria: a divisão de papéis não é escudo.
A Diretoria responde por execução e reporte. O Conselho responde por supervisão, estratégia e riscos. E o Conselho não pode alegar desconhecimento quando:
A fronteira entre governança e execução não é salvo-conduto: o Business Judgment Rule protege decisões bem informadas. Ele não protege omissões regulatórias objetivas. Sem informação adequada, debate documentado e evidência de diligência, a proteção desaparece. O verdadeiro ativo de defesa: evidência de diligência. Administrações não se protegem por acertar tudo no primeiro ano. Protegem-se por demonstrar diligência:
ESG Não Morreu
Diligência demonstrável é o principal ativo defensivo. O ESG não morreu. O que morreu foi a ilusão de que seria possível falar indefinidamente sobre Sustentabilidade sem responder à pergunta que sempre importou: Isso cria ou destrói valor?
Com IFRS S1 e S2, a resposta deixou de ser opcional. Ela passou a ser exigível, auditável e potencialmente responsabilizável. Isso não é o fim da Sustentabilidade. É o início da sua fase mais séria.
Rochana Grossi Freire
é Managing Director da RP Management. Board Member; Especialista em ESG, Governança e Sustentabilidade Financeira; Professora e Líder em Implementação de Due Diligence e Assurance IFRS S1 e S2.
rochana.freire@rpmanagementconsulting.net